O FGC publicou nesta semana seu relatório anual de 2025 com o primeiro detalhamento completo do impacto do conglomerado do Banco Master nas reservas do fundo. O documento revela impacto negativo total de R$ 57,4 bilhões, somando R$ 51,8 bilhões em provisões para garantias e R$ 5,7 bilhões em empréstimos diretos ao grupo. No pico da crise, a liquidez do fundo caiu para 1,28% dos depósitos elegíveis, abaixo do mínimo regulatório de 2,5%.
Impacto do conglomerado Master no FGC
| Componente |
Valor |
| Garantias: Banco Master, Master de Invest. e Letsbank |
R$ 40,6 bi |
| Garantias: Will Bank e Banco Pleno (2026) |
R$ 11,1 bi |
| Total provisionado |
R$ 51,8 bi |
| Empréstimos diretos ao conglomerado |
R$ 5,7 bi |
| Impacto negativo total |
R$ 57,4 bi |
Relatório Anual 2025 do FGC. Fonte: Valor Econômico
Como o fundo chegou a R$ 57,4 bi de exposição
O relatório divide o impacto em provisões para garantias e empréstimos de liquidez. No primeiro grupo, o FGC reservou R$ 40,646 bilhões para cobrir garantias de Banco Master, Master de Investimentos e Letsbank, e mais R$ 11,120 bilhões já em 2026, após a liquidação extrajudicial do Will Bank e do Banco Pleno. No segundo grupo, o saldo de empréstimos ao conglomerado somava R$ 5,794 bilhões ao fim de 2025: R$ 2,878 bilhões para o Banco Master, R$ 1,824 bilhão para o Will Bank, R$ 801 milhões para o Pleno e R$ 291 milhões para o Master de Investimentos.
O fundo justifica a decisão de emprestar diretamente ao grupo: “A operação foi estruturada de modo que os recursos fornecidos pelo FGC foram liberados semanalmente, a partir da emissão de letras financeiras, e destinados exclusiva e diretamente a pagamento de passivos elegíveis à garantia do FGC”, diz o documento. A lógica era que o custo de uma liquidação abrupta poderia ser mais elevado do que o da assistência estruturada. O patrimônio líquido do fundo recuou de R$ 140,4 bilhões para R$ 123,2 bilhões ao longo de 2025, queda de 12,2%, conforme dados adicionais da CNN Brasil. O BC já havia identificado o rastro do problema: 36 empresas envolvidas em desvio de R$ 11,5 bilhões no Master.
Liquidez abaixo do piso e a resposta dos bancos
O regulamento do FGC exige liquidez equivalente a 2,5% dos depósitos elegíveis. Ao fim de 2025, antes de o fundo começar a pagar as garantias do conglomerado, esse índice já estava em 2,23%, abaixo do limite. Com o início dos pagamentos, caiu para 1,28%. O fundo apresenta o dado, mas aponta recuperação: após a antecipação de 60 meses de contribuições pelos bancos associados, creditada em março de 2026 e equivalente a R$ 32,185 bilhões, a liquidez subiu para 1,86%.
Projetando os impactos futuros das liquidações do Will Bank e do Banco Pleno, o FGC estima patrimônio líquido de R$ 112 bilhões e liquidez de R$ 103 bilhões, ou 1,86% dos depósitos elegíveis. “O FGC mantém reservas robustas, suficientes para fazer frente a cenários severos de estresse de mercado”, afirma o documento. A entidade ressalta o contexto histórico: “Em 2025, o FGC completou 30 anos de história e, justamente em seu mês de aniversário, novembro, diante da liquidação do Banco Master, recebeu da sociedade brasileira o maior reconhecimento que poderia almejar: a ampla confiança de depositantes e investidores na efetividade da garantia prestada pelo FGC.”
O que observar
O índice de liquidez do fundo garantidor ainda está 0,64 ponto percentual abaixo do piso regulatório de 2,5%, mesmo após a antecipação de contribuições. A trajetória é de recuperação, mas qualquer novo evento de iliquidez relevante pressionaria um colchão já reduzido. Vale acompanhar se o regulador vai revisar o modelo de capitalização e os gatilhos de atuação preventiva do fundo à luz deste episódio, que testou os limites de um arcabouço desenhado para eventos individuais, não para colapsos de conglomerado.
A antecipação de 60 meses de contribuições pelos bancos associados representa, na prática, um adiantamento de receita futura do fundo. Isso significa que a capacidade de acumulação orgânica de reservas será reduzida nos próximos cinco anos. Para o sistema financeiro, o custo real já foi pago antecipadamente; o risco residual é que novas liquidações dentro desse intervalo encontrem margens mais estreitas do que as vigentes antes da crise de 2025.
Fontes: Valor Econômico • CNN Brasil • Agência Brasil • Let’s Money • Let’s Money