O mercado brasileiro de capitais de dívida somou R$ 192,4 bilhões em ofertas no primeiro trimestre de 2026, alta de 22,5% sobre o mesmo período de 2025, segundo levantamento da Bloxs, fintech de Investment Banking as a Service. Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) saltaram 38% e viraram o principal motor da expansão, puxados por empresas médias e familiares que começam a acessar o mercado de capitais.
Emissões de dívida por instrumento no 1T26
| Instrumento |
Volume |
Variação anual |
| Debêntures |
R$ 73,0 bi |
-14,3% |
| FIDCs |
R$ 29,7 bi |
+38,1% |
| CRIs |
R$ 7,4 bi |
+11,3% |
| CRAs |
R$ 2,1 bi |
-72,0% |
| Notas comerciais |
R$ 5,5 bi |
-35,0% |
| Consolidado |
R$ 192,4 bi |
+22,5% |
Legenda. Fonte: Bloxs via NeoFeed
FIDCs viram porta de entrada do middle market
Para a Bloxs, os FIDCs se consolidaram como “a porta de entrada do middle market”, empurrados por dois fatores estruturais. O primeiro é a abertura do instrumento ao investidor de varejo após a CVM 175, que ampliou a responsabilidade limitada dos cotistas e exigiu mais transparência; só em 2025 a categoria cresceu 122,8% em captação, puxada pela distribuição ao varejo tradicional. O segundo é um ciclo em que emissores menores procuram estruturas ancoradas em recebíveis, capital de giro e financiamento pulverizado, em vez de dívida bancária.
O diferencial de custo continua puxando novos emissores. Enquanto o crédito bancário para pessoa jurídica opera entre 20% e 27% ao ano, o mercado de capitais entrega taxas de 16% a 18% para empresas de médio porte e a partir de CDI+2% para emissores AAA, mesmo com a Selic em 14,75%. “Vemos um mercado de capitais crescendo ano após ano, mas boa parte desse crescimento não se dá necessariamente porque ele se tornou melhor do que outras alternativas”, disse Felipe Souto, CEO da Bloxs, ao NeoFeed. “Há um crescimento considerável daquelas empresas do small middle market, padrão mais familiar, fora dos grandes centros, que começaram a descobrir o mercado de capitais.”
Eleição antecipa emissões e acelera o primeiro trimestre
Souto aponta um fator conjuntural para o ritmo do trimestre: a proximidade do ciclo eleitoral. “Por conta das eleições no fim do ano e da volatilidade que traz ao mercado, as companhias estão correndo para conseguir emitir mais cedo”, afirmou. A concentração de emissões no início do ano segue um padrão conhecido em anos eleitorais, quando emissores tentam travar condições antes da volatilidade de juros e câmbio.
Nos setores líderes do mercado consolidado, a energia elétrica respondeu por cerca de 28% do volume, seguida por saneamento (18%), agronegócio (15%) e logística e transportes (12%). A queda de 72% nos CRAs, instrumento tradicional do agro, contrastou com o avanço dos demais veículos e reflete um cenário mais difícil para o financiamento privado do setor rural. O movimento também aparece na infraestrutura de emissão: em abril, a Kanastra comprou a Tercon mirando a liderança em FIDCs com 323 fundos, sinalizando corrida por escala entre plataformas que atendem emissores menores. Casos como a CashGO, que captou R$ 120 milhões via FIDC para escalar a antecipação de aluguéis, ajudam a ilustrar o tipo de operação que engrossou o volume no trimestre.
O que observar
A ascensão dos FIDCs como veículo do middle market empurra a disputa para as plataformas de estruturação e os administradores fiduciários, que precisam processar volume crescente de emissões pequenas e pulverizadas com custo unitário baixo. O teste será se a escala vem de plataformas especializadas com tecnologia ou de braços de bancos médios que já atendem esse público por outros canais, e se o ganho de receita compensa o esforço operacional de onboarding de centenas de emissores familiares fora dos grandes centros.
Vale acompanhar também como o ciclo eleitoral e o eventual corte de juros afetam o ritmo do segundo semestre. Se a Selic começar a ceder e o apetite por risco voltar, spreads comprimem e a janela para emissores menores se alarga. Caso contrário, a corrida do primeiro trimestre pode ter puxado para frente a demanda que apareceria ao longo do ano, com desaceleração nos trimestres seguintes. O grupo mais exposto ao risco são as gestoras e administradores fiduciários que acabam de estruturar capacidade para atender essa nova base.
Fontes: NeoFeed • Bloxs • ANBIMA