Ir para o conteúdo

RegulaçãoInternacional · Drex

FMI alerta que tokenização migra risco de bancos para código

O FMI alertou que a tokenização tira o risco do balanço dos bancos e o concentra em plataformas e código, e cobra adaptar a política monetária.

por

· 3 min

Atualizado em

Shutterstock

O Fundo Monetário Internacional publicou um alerta sobre tokenização: conforme ativos e liquidações migram para redes programáveis, o risco deixa o balanço dos bancos e se concentra nas plataformas e no código que executam cada transação. Adaptar a política monetária a esse novo desenho, diz o Fundo, virou urgência. E o recado atinge em cheio o Drex.

O que muda num sistema tokenizado

Dimensão Modelo atual Com tokenização
Bases de dados Centralizadas, processos sequenciais Redes distribuídas, sem os antigos amortecedores
Risco No balanço de cada instituição Concentrado em plataformas e código
Liquidação Reconciliações e ciclos de relatório Tempo real, chamadas de margem automatizadas
Regras Em instituições e contratos Escritas em código (smart contracts)

Mudanças estruturais apontadas pelo FMI para um sistema tokenizado. Fonte: Finextra

Por que o risco muda de lugar na tokenização

A leitura do Fundo parte de uma troca de fundação. As bases de dados centralizadas e os processos em sequência que sustentaram os mercados de valores mobiliários por décadas somem num ambiente tokenizado. Isso corta atrito, tempo e custo, mas também remove uma série de amortecedores que hoje seguram o sistema quando algo dá errado.

“As demandas por liquidez se materializam em tempo real, as chamadas de margem podem ser automatizadas e as falhas se propagam mais rápido do que instituições ou supervisores conseguem responder” (em tradução livre), afirma o documento. Como as regras de cada operação passam a ser escritas em código, a supervisão precisa alcançar o próprio código, além das instituições. Não é a primeira vez que um organismo multilateral acende o sinal: o FMI já havia alertado que os criptoativos podem amplificar crises, e o BIS fez alerta parecido sobre stablecoins.

Há ainda o flanco jurídico. Para o Fundo, os participantes precisam saber “se os registros tokenizados constituem propriedade definitiva, se o caráter definitivo da liquidação é reconhecido legalmente e qual jurisdição se aplica” (em tradução livre). “Sem clareza, a tokenização vai permanecer fragmentada e periférica”, conclui. O ponto central do documento é político: “as escolhas de política feitas agora vão determinar se a tokenização fortalece ou fragmenta o sistema financeiro” (em tradução livre).

O que o Brasil já testou na prática

O aviso não é abstrato para quem acompanha o Brasil. O BC reformulou o Drex depois que o TCU apontou falhas no blockchain, e o projeto foi reposicionado como uma plataforma de tokenização de ativos financeiros. Boa parte das dores que o FMI descreve (liquidação, interoperabilidade, governança do código) já apareceram nos testes locais.

Em entrevista ao podcast Let’s Money em outubro de 2025, André Carneiro, CEO da BBChain, descreveu o salto entre teoria e prática nas fases do piloto. “A primeira fase foi PPT para a maioria do mercado. Quem realmente programou em blockchain foi o Bacen”, disse. Na fase seguinte, segundo ele, o Banco Central exigiu casos reais em blockchain, e o consórcio testou Cédula de Crédito Bancário tokenizada com emissão, mercado secundário e liquidação, além de gravame de títulos públicos. São exatamente os pontos de fricção que o documento do Fundo mira. Empresas de infraestrutura vêm se posicionando nesse mercado, caso da própria BBChain, que fechou acordo com a Evertec para tokenização.

O que observar

O alerta desloca o foco de quem vigia o quê. Se o risco sai do balanço das instituições e vai para as plataformas de liquidação e para o código, a pergunta prática é se supervisores e bancos centrais conseguem enxergar dentro de contratos automatizados na mesma velocidade em que eles executam. Vale acompanhar como reguladores vão desenhar mecanismos de liquidez e de contenção de crise para um ambiente que opera sem pausa, onde chamadas de margem disparam sozinhas e uma falha pode se espalhar antes de qualquer intervenção humana.

Do lado brasileiro, o teste será se infraestruturas públicas como o Drex conseguem incorporar desde já as salvaguardas que o Fundo pede (ativo de liquidação seguro, clareza jurídica sobre propriedade e finalidade, e interoperabilidade entre redes) em vez de tratá-las como ajuste posterior. A janela em que essas escolhas ainda são baratas de fazer tende a ser curta.

Fontes: FinextraFundo Monetário InternacionalLet’s Money Podcast: os primeiros testes do Drex

Compartilhar essa notícia

Let's News

Entenda o dinheiro antes do mercado.

Ao assinar, você concorda com a política de privacidade.

Sem spam. Cancele quando quiser.

Mais notíciasNotícias
Ver a editoria

Mais artigos de Notícias

Let's News

Ao assinar, você concorda com a política de privacidade.

Sem spam. Cancele quando quiser.