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REGULAÇÃObanco central · Banco Master

Galípolo: BC quer supervisionar fundos em crise

Galípolo diz que fintechs, fundos e IPs fora do perímetro bancário tradicional expõem o sistema e pede ampliação da supervisão do Banco Central.

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Atualizado em

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, defendeu na última sexta-feira (10) que o BC passe a supervisionar também as instituições financeiras não bancárias, grupo que inclui fundos, corretoras, distribuidoras, instituições de pagamento e fintechs, sempre que a autoridade monetária for acionada para prover liquidez em eventos de crise. A fala foi feita em palestra na FEA-USP.

O perímetro regulatório em debate

Grupo Situação atual
Bancos comerciais, múltiplos, cooperativas Supervisão direta do BC
Fundos, corretoras, distribuidoras Supervisão da CVM
Instituições de pagamento Regulação parcial do BC
Fintechs de crédito e câmbio Regulação parcial do BC
NBFI no mundo (FSB, 2024) 51% dos ativos financeiros globais

Mapa do debate proposto por Galípolo na FEA-USP. Fontes: Valor e FSB.

O caminho da liquidez para fora do perímetro

Galípolo afirmou que o aperto da regulação bancária depois da crise de 2008 fez “a liquidez escorrer para outros tipos de instituições”, o que ampliou o peso de agentes fora do sistema bancário tradicional. No grupo que ele chamou de instituições financeiras não bancárias, ou NBFIs, citou combinações entre fundos, instituições de pagamento, fintechs, corretoras e distribuidoras, que, segundo ele, “conseguem desempenhar papéis análogos aos que um banco desempenha”.

O diagnóstico não é isolado. O relatório anual do Financial Stability Board publicado em dezembro mostra que a NBFI cresceu 9,4% em 2024, quase o dobro do setor bancário, e já responde por 51% dos ativos financeiros globais. O órgão coordena o debate sobre alavancagem fora do perímetro bancário desde 2011 e criou, em 2025, uma força-tarefa dedicada a fechar lacunas de dados sobre o setor.

O argumento do lender of last resort

Na palestra, Galípolo ressaltou que, embora haja outros supervisores no sistema, “só ele [o Banco Central] é a autoridade monetária” e “só ele tem o poder de eventualmente prover liquidez ao sistema”. Essa, segundo ele, é a razão central do debate sobre o alcance da supervisão dessas entidades em momentos de crise. “Se eu vou ter que dar liquidez em um evento de crise, eu gostaria também de supervisionar”, afirmou.

A fala reitera posição que Galípolo vinha defendendo no Senado desde novembro, quando o tema voltou ao debate público com o caso Banco Master. O BC impôs sigilo de oito anos sobre a liquidação do Master, cuja operação combinava captação de CDBs de curto prazo a 140% do CDI com investimentos em ativos ilíquidos, como precatórios e FIDCs. Em análise ao podcast Let’s Money em 2025, um analista do mercado descreveu o descasamento entre ativo e passivo como o gatilho central do colapso, exatamente a dinâmica que motiva o argumento do BC por supervisão integrada. O caso também gerou investigações sobre fundos de pensão que investiram no banco, e a defesa de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master, prepara proposta de delação premiada que deve prever ressarcimentos.

O que observar

O primeiro ponto de tensão é institucional. Ampliar o perímetro direto da autoridade monetária sobre fundos, corretoras e distribuidoras implica revisar o desenho dual de supervisão do sistema financeiro brasileiro, hoje dividido entre reguladores com mandatos distintos, e exige debate legislativo. A tramitação da PEC 65/2023 no Senado virou termômetro do apetite político para essa reorganização.

A segunda frente operacional é a adequação de atores que operam na fronteira. Categorias de atores mais expostas, como instituições de pagamento com funding de varejo, gestoras de fundos abertos com ativos ilíquidos e plataformas de crédito privado, podem ter que rever estrutura de capital, testes de estresse e limites de concentração. Vale acompanhar se o regulador bancário vai propor um regime escalonado, que trate de forma diferente IPs sistêmicas e fintechs de menor porte, ou se a ampliação será horizontal. O ritmo da PEC 65 e o conteúdo das próximas consultas públicas dão os primeiros sinais.

Fontes: ValorInvestidor InstitucionalFinancial Stability BoardLet’s Money Podcast: Banco Master e FGC

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