Alberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica para América Latina do Goldman Sachs, avalia que o Banco Central está “muito perto” de reconhecer que precisará pausar o ciclo de corte da Selic, pressionado por três choques simultâneos que comprimem o espaço para novos cortes.
Três choques que pressionam a política monetária, segundo o Goldman
| Choque |
Mecanismo |
| Global de oferta |
Alta dos preços de petróleo, sem resolução do conflito no Oriente Médio |
| Local |
Combustíveis mais caros pressionam custo dos alimentos |
| Demanda |
Economia sobreaquecida, mercado de trabalho apertado, renda bruta crescendo mais de 11% ao ano |
Análise de Alberto Ramos, Goldman Sachs, maio de 2026. Fonte: Bloomberg Línea
O espaço que se fecha
Ramos reconhece que o Banco Central “deu um pouco de azar” por ter iniciado o ciclo de cortes logo após o início da guerra no Irã, sendo obrigado a lidar com os três choques ao mesmo tempo. As próprias projeções da autoridade monetária já mostram que a inflação não converge à meta dentro do horizonte relevante de seis trimestres à frente. Olhando um intervalo mais curto, de três a quatro trimestres, a projeção está ainda mais elevada. “O Banco Central resolveu começar os cortes num ritmo conservador esperando, ou talvez ansiando, que esse choque global de energia se resolveria e isso adicionaria mais espaço para continuar o ciclo. Se isso não acontecer, esse espaço se reduz rapidamente”, disse. “Em algum ponto uma pausa se justificaria.”
Na avaliação do economista, dois cortes de 25 pontos-base com sinalização aberta seriam apropriados, mas são defensáveis apenas porque a taxa atual é muito restritiva: “em condições normais, não fosse o juro tão restritivo, o Banco Central neste momento não deveria cortar”. A probabilidade de uma pausa já na reunião de junho do Copom tem aumentado, embora ainda não seja o cenário dominante. O Focus já projetava a Selic em 12,13% em 2026 após a escalada da guerra, antes de novas revisões para cima.
Hiperativismo fiscal e eleição
Além dos choques externos, Ramos aponta o que classifica como “hiperativismo fiscal” do governo como fator adicional de pressão sobre o BC. As medidas fiscais, quase-fiscais e de impulso ao crédito adotadas pelo governo equivalem, na sua estimativa, a um estímulo de 1,1% a 1,3% do PIB. “Dia atrás dia o governo vem com outra iniciativa beneficiando um determinado grupo com o objetivo de manter a economia resiliente”, disse, avaliando que isso dificulta a convergência da inflação à meta. O FMI já havia alertado sobre os impactos da guerra no Oriente Médio sobre economias emergentes expostas ao choque de energia.
O economista, que também atuou como economista sênior no FMI, projeta que o Brasil terá pelo menos mais dois anos com a Selic acima do nível neutro. Sobre o real, avalia que a moeda está bem demandada não por fundamentos macroeconômicos sólidos, mas porque o BC foi forçado a validar o choque de juros, tornando o carrego atrativo para tomadas de risco de curto prazo. “Connecting the dots, a gente vai chegar à conclusão que esse ciclo de recalibração monetária talvez tenha vida curta”, disse.
O que observar
A distinção entre pausa para recalibração e fim de ciclo vai ser central na comunicação do Copom nas próximas reuniões. Mercados tendem a pricejar a pausa como sinalização de uma taxa terminal, o que amplia o impacto sobre curva de juros e câmbio além do que a autoridade monetária pode querer sinalizar. A comunicação pós-reunião tende a importar tanto quanto a decisão em si.
O carry atrativo sustentado pela taxa restritiva tem lógica de curto prazo, mas carrega assimetria: qualquer sinalização de pausa definitiva ou deterioração mais acentuada do quadro fiscal pode reverter rapidamente o fluxo de entrada. Em anos eleitorais, a volatilidade cambial tende a se antecipá ao ciclo político, não apenas a reagir a ele. O cenário-base ainda prevê dois cortes adicionais, mas condicionado à ausência de nova deterioração: inflação acima do esperado, choque de petróleo intensificado ou crescimento novamente surpreendendo para cima seriam suficientes para antecipar a pausa já em junho.
Fontes: Bloomberg Línea • Let’s Money • Let’s Money