Ir para o conteúdo

Política MonetáriaRegulação · Copom

Goldman Sachs vê BC perto de pausar ciclo de corte da Selic

Goldman Sachs vê BC perto de pausar cortes da Selic diante de inflação acima da meta, atividade sobreaquecida e hiperativismo fiscal do governo.

por

· 3 min

Atualizado em

Foto: Shutterstock

Alberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica para América Latina do Goldman Sachs, avalia que o Banco Central está “muito perto” de reconhecer que precisará pausar o ciclo de corte da Selic, pressionado por três choques simultâneos que comprimem o espaço para novos cortes.

Três choques que pressionam a política monetária, segundo o Goldman

Choque Mecanismo
Global de oferta Alta dos preços de petróleo, sem resolução do conflito no Oriente Médio
Local Combustíveis mais caros pressionam custo dos alimentos
Demanda Economia sobreaquecida, mercado de trabalho apertado, renda bruta crescendo mais de 11% ao ano

Análise de Alberto Ramos, Goldman Sachs, maio de 2026. Fonte: Bloomberg Línea

O espaço que se fecha

Ramos reconhece que o Banco Central “deu um pouco de azar” por ter iniciado o ciclo de cortes logo após o início da guerra no Irã, sendo obrigado a lidar com os três choques ao mesmo tempo. As próprias projeções da autoridade monetária já mostram que a inflação não converge à meta dentro do horizonte relevante de seis trimestres à frente. Olhando um intervalo mais curto, de três a quatro trimestres, a projeção está ainda mais elevada. “O Banco Central resolveu começar os cortes num ritmo conservador esperando, ou talvez ansiando, que esse choque global de energia se resolveria e isso adicionaria mais espaço para continuar o ciclo. Se isso não acontecer, esse espaço se reduz rapidamente”, disse. “Em algum ponto uma pausa se justificaria.”

Na avaliação do economista, dois cortes de 25 pontos-base com sinalização aberta seriam apropriados, mas são defensáveis apenas porque a taxa atual é muito restritiva: “em condições normais, não fosse o juro tão restritivo, o Banco Central neste momento não deveria cortar”. A probabilidade de uma pausa já na reunião de junho do Copom tem aumentado, embora ainda não seja o cenário dominante. O Focus já projetava a Selic em 12,13% em 2026 após a escalada da guerra, antes de novas revisões para cima.

Hiperativismo fiscal e eleição

Além dos choques externos, Ramos aponta o que classifica como “hiperativismo fiscal” do governo como fator adicional de pressão sobre o BC. As medidas fiscais, quase-fiscais e de impulso ao crédito adotadas pelo governo equivalem, na sua estimativa, a um estímulo de 1,1% a 1,3% do PIB. “Dia atrás dia o governo vem com outra iniciativa beneficiando um determinado grupo com o objetivo de manter a economia resiliente”, disse, avaliando que isso dificulta a convergência da inflação à meta. O FMI já havia alertado sobre os impactos da guerra no Oriente Médio sobre economias emergentes expostas ao choque de energia.

O economista, que também atuou como economista sênior no FMI, projeta que o Brasil terá pelo menos mais dois anos com a Selic acima do nível neutro. Sobre o real, avalia que a moeda está bem demandada não por fundamentos macroeconômicos sólidos, mas porque o BC foi forçado a validar o choque de juros, tornando o carrego atrativo para tomadas de risco de curto prazo. “Connecting the dots, a gente vai chegar à conclusão que esse ciclo de recalibração monetária talvez tenha vida curta”, disse.

O que observar

A distinção entre pausa para recalibração e fim de ciclo vai ser central na comunicação do Copom nas próximas reuniões. Mercados tendem a pricejar a pausa como sinalização de uma taxa terminal, o que amplia o impacto sobre curva de juros e câmbio além do que a autoridade monetária pode querer sinalizar. A comunicação pós-reunião tende a importar tanto quanto a decisão em si.

O carry atrativo sustentado pela taxa restritiva tem lógica de curto prazo, mas carrega assimetria: qualquer sinalização de pausa definitiva ou deterioração mais acentuada do quadro fiscal pode reverter rapidamente o fluxo de entrada. Em anos eleitorais, a volatilidade cambial tende a se antecipá ao ciclo político, não apenas a reagir a ele. O cenário-base ainda prevê dois cortes adicionais, mas condicionado à ausência de nova deterioração: inflação acima do esperado, choque de petróleo intensificado ou crescimento novamente surpreendendo para cima seriam suficientes para antecipar a pausa já em junho.

Fontes: Bloomberg LíneaLet’s MoneyLet’s Money

Compartilhar essa notícia

Let's News

Entenda o dinheiro antes do mercado.

Ao assinar, você concorda com a política de privacidade.

Sem spam. Cancele quando quiser.

Mais notíciasNotícias
Ver a editoria

Mais artigos de Notícias

Let's News

Ao assinar, você concorda com a política de privacidade.

Sem spam. Cancele quando quiser.