A britânica Hokodo, pioneira de BNPL para B2B na Europa, encerrou suas operações após oito anos, mais de €500 milhões em faturas financiadas e 100 mil compradores atendidos em 10 países. Os fundadores lançaram uma consultoria de IA para trade credit.
Hokodo em números
| Indicador |
Dado |
| Anos de operação |
8 (2018–2026) |
| Faturas financiadas |
Mais de €500 milhões |
| Compradores atendidos |
Mais de 100 mil |
| Países |
10 |
| Parceria estratégica |
BNP Paribas (2023) |
Fonte: Finextra
O que era a Hokodo
Fundada em 2018 por Louis Carbonnier, Richard Thornton e Sami Ben Hatit, a Hokodo construiu uma plataforma embedded de crédito comercial para marketplaces e atacadistas. O produto permitia que o comprador B2B finalizasse um pedido no checkout e escolhesse pagar em 30, 60 ou 90 dias, com a fintech assumindo risco, análise e cobrança. A tese era aplicar o modelo que Klarna e Affirm popularizaram no varejo ao universo de pagamentos entre empresas, onde o prazo de pagamento é regra e o crédito comercial é infraestrutura.
A Hokodo captou mais de €50 milhões em equity ao longo da trajetória, operou em dez países europeus e em 2023 anunciou uma parceria com o BNP Paribas para originar crédito dentro da plataforma. Também havia a promessa de que o banco francês atuaria como funding partner em alguns mercados. No papel, era o selo institucional que um produto embedded precisa para passar por compliance de grande merchant.
Por que fechou, nas palavras dos fundadores
O comunicado oficial no LinkedIn é direto sobre os erros. “Levamos tempo demais para estreitar o foco, escalamos antes de termos de fato merecido e assumimos complexidade de produto demais no caminho”, escreveu a empresa. Em outras palavras: tentaram atender do pequeno marketplace ao grande merchant enterprise ao mesmo tempo, empilharam features para caber em cada modelo e nunca encontraram um ICP em que a unit economics fechasse com folga.
“Liquidity Lab não é um pivot nem um prêmio de consolação. É a conclusão lógica de tudo que aprendemos sobre onde a oportunidade em trade credit B2B realmente está”, afirmou Louis Carbonnier no anúncio da nova empreitada. A Liquidity Lab nasce como consultoria, ajudando empresas B2B a reformar operações de crédito comercial e fluxo de caixa com uso de IA, sem carregar o balanço de risco de crédito que derrubou a própria Hokodo.
A lente brasileira: por que o fomento comercial sobreviveu
A autocrítica da Hokodo ecoa um insight estrutural que o mercado brasileiro de crédito PJ já conhece. Em entrevista ao podcast Let’s Money em 2025, um fundador com 30 anos no mercado de fomento comercial resumiu a tese: “A grande vantagem do nosso mercado é o contato que nós temos com o cliente, é a proximidade que nós temos com o nosso cliente”. Segundo o convidado, o fomento brasileiro sobreviveu três décadas justamente por operar perto do sacado, enquanto a primeira geração de BNPL B2B europeu tentou escalar embutida no checkout, longe do tomador. Escalar crédito para empresas sem conhecer cada sacado é a receita clássica para inadimplência concentrada, e foi o que a própria Hokodo admitiu ter feito.
O que observar
O fechamento da Hokodo é um dado-sinal para a tese de BNPL empresarial europeu e para quem tenta replicar a mecânica no Brasil. O BNPL de varejo, mesmo com margem apertada, tem volume alto, ticket baixo e ciclo de risco curto. O B2B inverte tudo: ticket maior, ciclo mais longo, underwriting mais intenso por cliente, e concentração de risco em poucos compradores grandes. Isso empurra a equação para um custo de capital que só fecha se o funding vier barato, estruturado e paciente, exatamente o que a parceria com banco de investimento europeu prometia entregar mas que, no fim, não bastou.
No mercado brasileiro, a mesma dor aparece no fomento comercial, nas FIDCs de antecipação de recebíveis, nos bancos digitais PJ e nas fintechs de crédito que vêm mirando PMEs. O teste verdadeiro não é saber se o produto funciona na vitrine, e sim se a combinação de originação, funding e cobrança sobrevive a um ciclo inteiro de inadimplência. Vale acompanhar se as fintechs de crédito PJ que escalam hoje, beneficiadas pela demanda por crédito empresarial que cresceu 9,8% em 2025 e por movimentos como o Mercado Pago liberando crédito para 9 em 10 PMEs no Conta Negócio, vão escolher foco cedo o suficiente para não repetir o erro de tentar atender todo mundo. A outra pergunta que fica é mais dura: se o modelo de BNPL B2B puro-sangue não fechou nem com parceria de banco incumbente europeu, o que muda no Brasil, onde o custo de capital é estruturalmente maior?
Fontes: Finextra • Shopifreaks • Let’s Money Podcast (O novo mercado de fomento comercial)