O Brasil só sai do ciclo de juros reais de 10% com alinhamento entre as políticas fiscal e monetária, alertou Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do conselho do Bradesco, na Brazil Week em Nova York. Para ele, a taxa atual é “proibitiva” para empresas, pessoas e para o Tesouro Nacional.
Taxa Selic: histórico recente
| Período |
Taxa Selic |
| Jun/2025 a mar/2026 |
15% ao ano |
| Após Copom de abr/2026 |
14,5% ao ano |
Taxa básica de juros, histórico recente. Fonte: Agência Brasil
A Brazil Week e o debate sobre juros reais
A declaração foi feita durante o “Brasil em Pauta Nova York”, conferência do Estadão na abertura da Brazil Week, que reuniu empresários e líderes do setor privado para debater o papel do Brasil no cenário internacional. O evento se tornou uma vitrine para apresentar oportunidades de investimento a gestores globais num momento em que projeções de mercado já apontavam para uma Selic mais baixa ao fim de 2026, após o Banco Central cortar a taxa para 14,5% ao ano em abril.
Mesmo com o corte, os juros reais continuam próximos de 10%, em patamar historicamente elevado. Trabuco argumentou que sem coordenação entre a política fiscal e a monetária o país tende a conviver com taxas elevadas por mais tempo. “Se o país não for capaz de fazer o alinhamento da política fiscal e da política monetária, teremos a necessidade de taxas de juros altas”, disse, durante a conferência.
Sistema financeiro como argumento brasileiro
Para além da crítica aos juros, Trabuco defendeu que o Brasil parte de uma posição de vantagem na disputa por capital estrangeiro. “O Brasil tem muito a oferecer. É um país com escala, recursos naturais, empresários preparados e um sistema financeiro que é reconhecido internacionalmente”, afirmou. Entre os diferenciais, citou a digitalização dos serviços bancários, a agenda de sustentabilidade e a experiência do país em agronegócio, energia e infraestrutura.
O executivo, cujo banco renovou três posições no conselho de administração em março, avaliou que o Brasil pode se posicionar como parceiro relevante dos Estados Unidos em um cenário global de reorganização das cadeias produtivas. O avanço de iniciativas como o Open Finance, apontado como caminho para reduzir o custo do crédito, foi mencionado como exemplo da maturidade institucional do setor financeiro brasileiro. “A aproximação entre Brasil e Estados Unidos é positiva para os dois lados. O importante é transformar esse diálogo em projetos concretos”, disse.
O que observar
A coordenação entre política fiscal e monetária que Trabuco defende é condição necessária, mas não suficiente: o mercado já conhece o diagnóstico há anos, e o que falta é sequência e credibilidade na execução do ajuste fiscal. Vale acompanhar se o interesse de gestores globais demonstrado na Brazil Week se traduz em compromisso concreto de capital, ou se permanece no estágio de sondagem enquanto as incertezas sobre o ambiente fiscal de 2026 persistem.
Para instituições financeiras de grande porte com carteira de crédito corporativo, a pressão de juros reais elevados sobre inadimplência e demanda é o teste imediato. Para o Tesouro, cada ponto percentual de juro real a mais representa bilhões adicionais no serviço da dívida, comprimindo o espaço fiscal para investimento produtivo.
Fontes: CNN Brasil • Agência Brasil