A Klarna bateu o próprio guidance no segundo trimestre, com receita de US$ 1,042 bilhão e lucro líquido de US$ 9 milhões, contra prejuízo de US$ 53 milhões um ano antes. Ainda assim, cortou a projeção de 2026 por causa do consumo fraco na Alemanha, e a ação despencou 21%.
O que mudou na projeção de 2026
| Indicador |
Projeção anterior |
Nova projeção |
| GMV |
Mais de US$ 155 bi |
US$ 149 bi a US$ 151 bi |
| Receita |
Mais de US$ 4,34 bi |
US$ 4,08 bi a US$ 4,16 bi |
| Transaction margin dollars |
Mais de US$ 1,61 bi |
US$ 1,62 bi a US$ 1,65 bi |
| Lucro operacional ajustado |
Mais de US$ 299 mi |
US$ 280 mi a US$ 300 mi |
Guidance de 2026 revisado na divulgação do segundo trimestre, em 18 de agosto de 2026. Fonte: Klarna
O que travou o volume na Europa
No trimestre, o volume bruto de mercadorias subiu 18%, para US$ 36,6 bilhões, e a receita cresceu 27%. Os transaction margin dollars, métrica que a gestão diz otimizar, avançaram 42%, para US$ 446 milhões, e o lucro operacional ajustado somou US$ 91 milhões, alta de 214%. Os Estados Unidos seguiram como a região grande de crescimento mais rápido, com volume 27% maior, em US$ 7,9 bilhões, e receita 37% maior, em US$ 376 milhões. Fora dos EUA, o volume cresceu 15% e a receita, 22%.
O corte veio da leitura para o resto do ano. Cerca de US$ 600 milhões da revisão do volume vêm de variação cambial, e o restante de uma projeção mais contida para a Europa, concentrada na Alemanha, maior mercado da empresa em volume. “O que vimos no fim do segundo trimestre foi um enfraquecimento do consumo discricionário na Alemanha”, disse o CFO Niclas Neglén a analistas, em tradução livre. A nova projeção parte do princípio de que essa fraqueza continua até o fim do ano, em vez de se recuperar. A empresa também anunciou que o CFO e o CMO deixam os cargos no início de 2027, e a ação caiu 18% nas primeiras negociações antes de recuar 21%.
Cartão e assinatura crescem fora do checkout da Klarna
Enquanto o volume desacelera na Europa, a receita vem de produtos que não dependem do checkout online. O cartão chegou a 6,5 milhões de usuários ativos em 16 países, contra 1,3 milhão um ano antes e 3,2 milhões em novembro de 2025. As assinaturas pagas somaram 2 milhões, oito vezes o número do ano anterior, com receita da modalidade crescendo mais de 600%. A gestão afirmou que as assinaturas quase não geram volume associado, ou seja, adicionam receita e margem sem aumento equivalente de transações. Em agosto de 2026, a fintech trocou a fidelidade do cartão por uma assinatura flexível, e em julho pediu licença para ter banco próprio nos EUA.
Na outra ponta do tíquete, o fair financing, produto de parcelas fixas para compras entre US$ 500 e US$ 10 mil, cresceu 82%, para US$ 4,7 bilhões, e respondeu por 13% do volume total. Ele está disponível em 256 mil lojistas, ante 151 mil em novembro de 2025, dentro de uma base de 1,2 milhão de estabelecimentos que aceitam a marca. O movimento inclui parcerias de compra alta: depois do Walmart, a empresa anunciou o Apple Upgrade, que permite ao consumidor pedir o leasing de aparelhos da Apple e gerenciar os pagamentos pela Klarna. A inadimplência acima de 30 dias nos EUA melhorou na comparação sequencial e as provisões caíram como proporção do volume. A disputa por esse tíquete também atrai os incumbentes, e no fim de junho o Bank of America lançou parcelado no cartão para enfrentar o BNPL. No Brasil, onde o parcelado sem juros já é padrão do cartão, o modelo aparece por outro caminho, como no crédito embarcado que a QI Tech fornece a varejistas e plataformas.
O que observar
O trimestre mostra duas empresas dentro da mesma: uma que depende do volume transacionado no varejo online e sente qualquer freada no consumo de um mercado europeu grande, e outra que vende assinatura e cartão e ganha receita sem volume proporcional. Vale acompanhar qual métrica as plataformas de BNPL vão colocar no centro do relatório daqui em diante, porque margem por transação e volume bruto começam a contar histórias diferentes sobre o mesmo negócio.
O segundo ponto é de crédito. Empurrar o tíquete de dezenas para milhares de dólares muda o prazo, a exposição e o custo de funding de quem opera esse parcelado, e a inadimplência dessas safras maiores só aparece com defasagem. Se a melhora dos atrasos se mantiver enquanto o produto de valor alto ganha escala, a tese de que dá para crescer em compra grande sem repetir o ciclo de perdas do crédito ao consumo fica mais forte. No mercado brasileiro, onde o parcelamento sem juros já resolve boa parte dessa necessidade, a pergunta é qual folga de preço sobra para quem chega depois.
Fontes: PYMNTS • Klarna Investor Relations • Yahoo Finance