Com licença bancária condicional obtida nos EUA em janeiro, o Nubank articula sua entrada no mercado americano a partir de dois eixos: a base latina, pelo peso da marca junto a imigrantes, e jovens afluentes nos EUA. A empresa começa do zero num mercado com milhares de bancos, com operação prevista para até 18 meses após a licença.
Projeções do Citi para o Nubank nos EUA
| Métrica |
Projeção |
| Carteira de crédito (2% de participação em CA, TX e FL até 2030) |
US$ 21 bi |
| ROE projetado para o Nubank nos EUA |
20% |
| ROE médio dos bancos americanos |
12% |
Projeções publicadas em março de 2026, assinadas pelo analista Gustavo Schroden. Fonte: InvestNews
Nubank nos EUA: a estratégia de Junqueira
Cristina Junqueira se mudou de São Paulo para Miami para encabeçar a operação americana. A experiência própria ajudou a calibrar o diagnóstico: levou meses para conseguir um cartão de crédito de um grande banco americano mesmo como cliente de private banking. “Nós sabemos como resolver esse tipo de problema”, afirmou em entrevista reproduzida pela Bloomberg e pelo InvestNews. Para a marca, o desafio é outro. “Nada será mais difícil do que construir uma marca nos EUA”, disse Junqueira.
Os movimentos de visibilidade já estão em marcha. O nome da fintech está no recém-inaugurado estádio do Inter Miami, clube onde joga Lionel Messi. Há também acordo com a equipe Mercedes-Benz na Fórmula 1, esporte cuja audiência cresceu com a série documental da Netflix. Para alcançar um público que ainda não conhece a marca, o Nubank contratou Kim Farrell, ex-diretora do TikTok, como diretora global de marketing. A empresa também abriu escritórios em Washington DC e em Palo Alto, na Califórnia.
Latinos, remessas e jovens afluentes
Miami é base natural para a operação. O condado é majoritariamente latino, e o nome Nubank tem peso junto a milhões de americanos com ligações com Brasil, México e Colômbia, os três países em que a fintech já soma mais de 130 milhões de clientes. A presença nos EUA pode se converter num impulso para remessas: Zachary Gunn, analista da Financial Technology Partners, afirmou que o Nubank poderia oferecer remessas gratuitas para Brasil e América Latina como forma de conquistar clientes, algo que não era possível até agora pela fragmentação das redes de pagamento nas duas pontas.
O Citi projeta uma carteira de crédito de US$ 21 bilhões até 2030 caso o Nubank alcance 2% de participação na Califórnia, no Texas e na Flórida. O valor equivale a cerca de 60% da carteira atual da empresa no Brasil e é comparável ao de bancos médios regionais dos EUA. A tese do Citi é clara: “O Nubank pode ter desempenho acima da média dos EUA graças ao baixo custo de servir”, escreveu o analista Gustavo Schroden em relatório de março. Junqueira sintetizou a sequência: “As primeiras pessoas que vão nos reconhecer serão brasileiros, mexicanos, mas vamos construir para essa geração afluente mais jovem que está surgindo nos EUA.”
O que observar
O desafio de construir uma marca em mercados maduros é estruturalmente diferente do de penetrar em mercados subbancarizados. Nos EUA, o consumidor já tem conta, cartão e crédito: a proposta de valor precisa ser diferenciação em custo ou experiência, não inclusão. Vale acompanhar se o modelo de baixo custo de servir, que funcionou no Brasil, se sustenta num mercado onde margens de crédito são menores e inadimplência tem perfil diferente.
O vetor de remessas é o mais concreto: fintechs que operam cross-border para América Latina enfrentam hoje custos e fricção que uma plataforma integrada pode endereçar. Se esse for o produto de entrada real, o modelo de crescimento é mais orgânico e menos dependente de reconhecimento de marca. A velocidade com que o Nubank conseguir converter usuários de remessas em clientes de crédito indicará se a projeção de analistas é alcançável antes de 2030.
Fontes: InvestNews • Let’s Money • Let’s Money