Um estudo da Oliver Wyman com o Morgan Stanley projeta que até US$ 82 bilhões em receitas dos bancos de atacado podem migrar para trilhos digitais até 2030. O impacto principal não virá das criptomoedas, mas da migração de atividades tradicionais para liquidação em tempo real e operações programáveis.
Receitas do atacado bancário em jogo até 2030
| Cenário |
Receitas em migração |
% do total estimado |
Novas receitas cripto |
| Conservador |
US$ 46 bi |
~6% |
US$ 4 bi |
| Adoção ampla |
US$ 82 bi |
>10% |
US$ 8 bi |
Projeção para receitas estimadas de US$ 770 bi em 2030. Fonte: Valor Econômico
Trilhos digitais, não cripto, lideram a ameaça
O relatório “Digital Rails, Real Economics”, publicado em maio de 2026, aponta que a indústria bancária de atacado atingiu receita recorde de US$ 660 bilhões em 2025, com projeção de US$ 650 bilhões a US$ 850 bilhões até 2030. As áreas mais expostas são pagamentos internacionais, câmbio, trade finance, gestão de liquidez e serviços para investidores. O argumento central é que ativos digitais dificilmente substituirão bancos tradicionais ou ameaçarão o modelo de captação baseado em depósitos, mas podem alterar como linhas de negócio operam.
Para se posicionar, o estudo elenca três prioridades: alocar capital em negócios rentáveis, converter investimentos em IA em resultado financeiro e estabelecer credencial em ativos digitais antes que a migração de clientes se acelere. O movimento tem paralelo no Brasil: o Banco Central prevê integrar Pix, Drex e Open Finance até 2029, sinal de que o atacado brasileiro também está na corrida.
O efeito Pix no Brasil
Denis Nakazawa, sócio de serviços financeiros da Oliver Wyman, aponta que o Brasil tem uma dinâmica distinta. “O Pix é um produto incrível, porque é 24/7, é on-line e, para o varejo, é gratuito”, disse Nakazawa. “Isso acabou ocupando o espaço do que seria tipicamente de stablecoins e CBDCs.” A velocidade e a gratuidade do Pix reduziram a dor que, em outros mercados, impulsiona a adoção de moedas digitais privadas no varejo.
No atacado e no cross-border, a equação é diferente. Startups como a Ruvo, que aposta em stablecoins para criar um modelo Pix entre Brasil e EUA, têm explorado esse espaço. O Banco Central, no entanto, passou a regular com mais rigor: a Resolução BCB 561, publicada em abril, proíbe prestadoras de eFX de liquidar câmbio com stablecoins e criptomoedas, com vigor a partir de outubro de 2026.
O que observar
A questão central não é se os trilhos digitais ganharão espaço no atacado, mas em que velocidade e com qual infraestrutura. Instituições que hoje liquidam operações interbancárias em D+1 ou D+2 enfrentam pressão para migrar para modelos em tempo real, e o custo de não agir pode superar o de construir. Vale acompanhar se bancos de médio e grande porte acelerarão a integração com redes de ativos digitais via capacidade própria ou por parcerias, e como reguladores equilibrarão inovação com controle de risco sistêmico.
O Brasil apresenta uma tensão específica: o Pix resolveu o varejo, mas o atacado segue exposto à mesma pressão internacional descrita no relatório. A Resolução 561 sinaliza que o BC prefere canalizar a adoção digital pelo Drex, com controle centralizado, em vez de permitir que stablecoins privadas operem como infraestrutura de liquidação. Essa escolha regulatória vai definir se o atacado bancário brasileiro avança nos trilhos digitais no ritmo global ou em uma curva própria.
Fontes: Valor Econômico • Oliver Wyman • CoinDesk • Let’s Money • Let’s Money