Os quatro maiores bancos do país devem registrar lucro consolidado de R$ 26,5 bilhões no primeiro trimestre de 2026, queda de 7,6% ante o trimestre anterior e de 6,2% frente ao mesmo período de 2024, com inadimplência no agronegócio e casos de grandes empresas elevando provisões para devedores duvidosos (PDD).
Estimativas de lucro: 1T26
| Grupo |
Lucro est. (R$) |
Var. t/t |
Var. a/a |
| 4 grandes (total) |
26,5 bi |
-7,6% |
-6,2% |
| 4 grandes (sem BB) |
23,0 bi |
+0,3% |
+10,3% |
| Nubank |
~4,5 bi (US$ 910 mi) |
n/d |
n/d |
Estimativas de analistas de sell-side para o 1T26. Fonte: Valor Econômico
BB e o peso do agro
O Banco do Brasil é o principal fator que puxa a média para baixo. Sem ele, o lucro consolidado dos demais três grandes chegaria a R$ 23,0 bilhões, com alta de 0,3% no trimestre e de 10,3% no ano. A presidente Tarciana Medeiros foi direta ao falar com investidores na semana passada: “Falando de forma muito transparente, acho que vocês perceberam durante todas as falas [do evento] que 2026 para nós será um ano de reestruturação, de retomada de crescimento. Não vai ser um ano fácil.”
O banco anunciou que renegociou R$ 36,5 bilhões no âmbito da MP 1.314, que auxiliou produtores afetados por eventos climáticos, com apenas 2,5% dessas operações vencendo em 2026. O problema, apontam analistas, está na carteira prorrogada do agro: R$ 64,5 bilhões com 36% de vencimentos neste ano. O Bank of America projeta que os resultados do BB podem ficar abaixo do consenso “principalmente devido a encargos com provisões piores do que o esperado, uma vez que os dados do BC mostram uma deterioração contínua dos empréstimos inadimplentes no agro”. O banco já havia renegociado R$ 4,1 bilhões com o Tesouro para preservar capital no início do ano.
Itaú, Bradesco e Santander em ritmos distintos
O Santander abre a temporada amanhã, antes da abertura dos mercados, em meio à transição de comando: Gilson Finkelsztain assume como novo CEO em julho, no lugar de Mario Leão. A XP espera um trimestre ligeiramente mais fraco, reflexo da postura mais seletiva no crédito “principalmente em cartões de crédito de baixa renda, agronegócio e PMEs”. O Goldman Sachs aponta risco de surpresas negativas em PDD pela exposição do banco a casos no atacado, com expectativa de expansão sequencial na margem financeira “apesar da pressão contínua na margem com mercado”.
O Bradesco deve ter crescimento de lucro tanto no trimestre quanto no ano, segundo o Safra, com PME e pessoa física como principais impulsionadores da carteira de crédito. No segmento de seguros, o banco deve registrar crescimento de 7% frente ao ano anterior. O Itaú, por sua vez, poderia renovar o recorde de lucro mesmo com a sazonalidade negativa e a antecipação de dividendos.
O consenso aponta leve queda de 0,2% no trimestre, mas os analistas do Santander CIB descartam deterioração nas tendências subjacentes: “Em nossas conversas com investidores, o Itaú continua sendo uma posição central em diversos portfólios, tanto entre investidores locais quanto estrangeiros.” Contexto: o banco registrou lucro recorde de R$ 46,8 bilhões em 2025 inteiro.
Inadimplência como tema central do trimestre
Analistas do J.P. Morgan definem qualidade de ativos como “o grande tema do trimestre”. A dúvida é se a piora em curso é sazonalidade ou tendência: “De acordo com nossas discussões, a preocupação dos investidores é generalizada em relação a diferentes produtos: cartões de crédito, empréstimos pessoais, PMEs, corporate, linhas rurais, entre outros.
Curiosamente, ainda não observamos um quadro claro de deterioração nos dados do Banco Central nos últimos meses.” O Citi vai na mesma direção: “Esperamos que os bancos brasileiros apresentem um trimestre menos favorável, impulsionado por uma combinação de fatores sazonais adversos […] e por maiores provisões, refletindo casos específicos de grandes empresas.”
Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, destaca a Raízen como o caso corporativo de maior potencial de impacto nos balanços: até recentemente tinha ratings relativamente bons, o que sugere baixo provisionamento até agora. “Temos um ciclo de inadimplência que deve pesar, tanto no agro, que afeta mais o BB, quanto entre grandes empresas. Tivemos várias recuperações judiciais e outros nomes grandes com dificuldades, então precisamos ver como esses casos devem transitar pelos balanços dos bancos.”
A inadimplência das pessoas físicas atingiu recorde histórico em janeiro, adicionando pressão ao quadro corporativo. O FGC já havia estimado impacto de até 1,9% no lucro dos bancos em 2026 por conta das mudanças no seguro de depósitos.
O Nubank deve registrar lucro de US$ 910 milhões (cerca de R$ 4,5 bilhões) no trimestre, com qualidade de ativos dentro do padrão sazonal, segundo o Bradesco BBI. No quarto trimestre de 2025, o banco havia registrado US$ 894 milhões de lucro.
O que observar
A pergunta central do ciclo é se a piora nos indicadores de crédito representa sazonalidade ampliada pela guerra no Irã e pelo impacto do petróleo na inflação, ou uma tendência mais firme de deterioração. Os dados do BC ainda não mostram quadro claro de deterioração, mas os casos corporativos específicos podem começar a aparecer nos balanços antes de qualquer sinal agregado.
O rali recente das ações de bancos foi pautado por fluxo estrangeiro, não por revisão de fundamentos, na avaliação de gestores. Isso eleva a base de comparação de preço e a vulnerabilidade a decepções nos resultados, especialmente em bancos que ainda não concluíram o ciclo de recuperação de rentabilidade. Utsch resume: “Tivemos um rali da bolsa muito pautado pelo investimento estrangeiro, e não exatamente pelos fundamentos das companhias. Então a régua, a base de comparação de preço, subiu muito.”
O novo programa de renegociação de dívidas que o governo deve lançar nos próximos dias tem impacto estimado como “muito marginal” por gestores. O risco, segundo Utsch, é fiscal: caso o governo faça um aporte grande no Fundo de Garantia de Operações (FGO), “isso pode afetar o humor do investidor, e nem está claro se o efeito líquido de tudo isso seria positivo para as ações dos bancos.” O cenário eleitoral ainda não está precificado nas ações, mas deve ganhar peso gradualmente ao longo de 2026.
Fontes: Valor Econômico • Let’s Money