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SecuritizaçãoCrédito · Crédito

Sou Capital completa 1 ano com 20 operações sob gestão

Securitizadora fundada há um ano, tem atualmente 20 operações sob gestão.

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· 8 min

Atualizado em

Henrique Carvalho, CEO da Sou Capital. Foto: Abner/Let's Money

Em 2010, um profissional que havia começado a carreira fazendo cobranças por telefone no interior de São Paulo entrou, em pouco tempo, em uma sala de reunião cheia de gente para discutir uma estruturação de CRI. Ele não era o estruturador. Era o cliente, do lado da incorporadora, que precisava do dinheiro para levantar um empreendimento. Dezesseis anos depois, Henrique Carvalho abriu a própria securitizadora. A Sou Capital completa um ano de criação com 20 operações sob gestão, um time de 11 pessoas e carteira com prazo médio de cinco anos.

Linha do tempo da Sou Capital

Quando Marco
2025 Criação da Sou Capital
7 meses Processo de licença na CVM e Anbima
Agosto de 2026 20 operações, 11 pessoas, prazo médio de carteira de 5 anos

Marcos informados pelo CEO da empresa. Fonte: Let’s Money Podcast

Do outro lado da mesa

A carreira começou cedo e por baixo. “Eu comecei bem jovem em um conglomerado financeiro do interior de São Paulo. Comecei pelo telefone em um call center, mas sempre falando de operações imobiliárias e reestruturação de dívida”, contou Henrique Carvalho, co-founder e CEO da Sou Capital, em entrevista ao Let’s Money Podcast. O grupo tinha uma incorporadora, e foi para lá que ele migrou. O contato com securitização veio por acidente de função, entre 2010 e 2011, quando o conglomerado precisou de funding para um empreendimento.

“No dia a dia de uma incorporadora se está acostumado a ver pagamento de tijolo, de cimento, de pedreiro, de repente eu começo a lidar com Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI) e falo, isso é importante porque isso aqui vai dar o funding para a gente poder construir o empreendimento X. Aquilo não entrava na minha cabeça”, disse. “E quando eu participei da primeira operação, eu fiquei encantado.”

O conglomerado também tinha um banco, o que abriu a porta para estruturação de dívida e debêntures. Anos depois veio o convite para trabalhar em uma securitizadora, e a simetria da história se fecha aí: era uma das casas de securitização que ele contratava quando estava do lado do tomador. Passou pela estruturação, assumiu gestão de operações e acumulou 17 anos entre prestar o serviço e comprá-lo, antes de decidir montar a própria securitizadora.

O mercado daquele começo era outro. “Naquela época demorava seis meses para nascer uma operação. Hoje a gente coloca de pé uma oferta pública em rito automático que já tenha a diligência jurídica entregue, entre 30 a 45 dias”, afirma.

O mercado que mudou entre 2022 e agora

A leitura que sustentou a decisão de empreender é regulatória. “Eu gosto sempre de falar que securitização surgiu pra abrir caminho”, disse Carvalho. “Antes você tinha a indústria de fundos e de bancos dominando o mercado e pouco se escutava sobre securitização.” O marco regulatório de 2022 alargou a prateleira: o CR trouxe para o mercado multissetorial estruturas que só cabiam no imobiliário e no agro. Hoje é permitida a revolvência dos recebíveis, o mecanismo pelo qual o dinheiro pago por créditos que vencem antes do fim de um título de securitização (como o CR, CRA ou CRI) é usado automaticamente para comprar novos direitos creditórios e manter o lastro da operação sempre renovado. Isso permite recomprar recebíveis à medida que o lastro é liquidado, e antes existia apenas nas operações agrícolas.

Na prática, isso mudou quem consegue bater na porta. “É dar acesso a capital de formas diferentes, de forma segura, de forma regulada e que antes eram só para grandes empresas”, afirmou. Há cinco ou seis anos, segundo o CEO, nenhuma operação parava de pé abaixo de R$ 20 milhões. Hoje a casa estrutura veículos de R$ 5 milhões, integralizados em tranches conforme a necessidade do projeto, o que evita jogar o fluxo inteiro contra um cronograma que ainda não começou.

A diferença em relação ao crédito bancário está no objeto da análise. “Eu acho importante olhar para essas operações não como um crédito direto, mas como uma estrutura montada, baseada em recebíveis”, disse. “Se essa empresa é uma empresa pequena, ou se ela é grande, é o projeto que vai ser avaliado, e não só a capacidade de pagamento dela.” O que entra na conta é a performance da carteira, a originação, a destinação e a região em que o produto funciona.

O efeito colateral é uma prateleira que ninguém desenhou. O imobiliário com destinação para obra segue como operação clássica, com engenheiro medindo a obra todo mês e covenants a acompanhar, e o agro com antecipação de safra na mesma lógica. Ao lado deles apareceram teses que não existiam. “Onde que há 10 anos atrás eu ia pensar que eu ia fazer uma operação de carregador de carro elétrico?”, questionou. Locação de notebooks e celulares virou lastro. Consignado privado também, com CCBs cedidas em lote. “A securitização está por trás de muita coisa que o cliente final nem fica sabendo que existe.”

Os números do setor acompanham. No mercado de securitização, as emissões de CRI e CRA totalizaram, respectivamente, R$ 21,1 bi e R$ 7,9 bi nos sete primeiros meses do ano de 2026, segundo dados do boletim de mercado da Anbima. Isso mostra que a estrutura de recebíveis deixou de ser exceção e virou canal permanente de funding, num mercado de securitização que passou a disputar espaço com o crédito bancário tradicional.

Sete meses entre abrir a empresa e começar a operar

Abrir a casa não é registrar um CNPJ. A Resolução CVM 60 traz um anexo com o que a autoridade exige antes de autorizar uma securitizadora, e a barreira começa nas pessoas. “A CVM não vai deixar você abrir uma securitizadora de ofertas públicas se você nunca operou nesse mercado”, disse Carvalho. O regulador quer entender a capacidade de administrar e tocar as operações, quem é o diretor de securitização e controles internos, como está montada a área de compliance, a jurídica e operações.

“Nessa trajetória de um ano, foram sete meses atrás de licença”, afirmou. Do outro lado do balcão há uma segunda camada de diligência, que são os demais prestadores de serviço, como o agente fiduciário, custodiante, depositária e todos os outros players obrigatórios em uma emissão, que avaliam quem são os sócios, time, capacidade de gestão e todos os demais pontos para uma emissão acontecer.

“Os clientes e parceiros não estavam só esperando a licença, eles confiam em quem vai tocar a operação”, disse. A Sou Capital conseguiu a autorização da Anbima para emitir ofertas públicas em maio de 2026. Hoje a companhia tem 20 operações sob gestão.

A obsessão com o pós-emissão

“Eu não vou ser uma casa de software. Eu vou investir em pessoas, em conhecimento e focar na administração das operações”, afirmou o CEO. A outra frente é a integração. As operações de alta pulverização só entram se houver troca automatizada com os demais participantes da cadeia, do bancarizador que gera as CCBs ao agente fiduciário, custodiante e depositária. Sem isso, a formalização vira trabalho manual e a conta não fecha. É o que sustenta, por exemplo, uma operação de consignado privado em que milhares de CCBs são cedidas e processadas em um único dia, com ticket que varia de R$ 200 a R$ 2 mil. O portal da securitizadora atende os perfis do investidor e do tomador, cada um com a visão de lastro, garantias e fluxo que lhe cabe.

A planilha foi banida como ferramenta de gestão de carteira, e a lembrança do que ela custava é recente. “Até pouco tempo atrás, o melhor sistema das securitizadoras que eu trabalhei era o Excel”, contou. “A gente tinha, sei lá, 300 operações ativas, 300 planilhas.” O objetivo declarado da troca é liberar gente. “Eu quero um analista que use o tempo dele para olhar para a operação e fazer um trabalho gerencial”, disse, “e levantar a mão na hora certa que tem que se levantar se a gente tiver que ter uma ação rápida para poder proteger os investidores.”

“É obrigação da securitizadora enquadrar as emissões, contratar os demais prestadores de serviço e cuidar do dever fiduciário”, afirma Carvalho.

É nesse ponto que a casa concentra a aposta. “Estruturar, colocar uma operação de pé não é o mais complexo”, afirmou. “O grande desafio é a administração dessa operação ao longo do tempo.” Na hierarquia interna, a área de pós-emissão é “o coração e o cérebro”, e é para onde vai o investimento.

Para a frente, o roteiro é adquirir mais licenças e aumentar a infraestrutura interna. “Eu quero ser conhecido como uma securitizadora de qualidade”, disse Carvalho.

O que observar

O gargalo declarado do setor não é estruturar, é administrar. Escolher uma securitizadora que atenda o seu tipo de projeto, conhecer o time interno da securitizadora que vai tocar a operação e ter canais de comunicação claros fará a diferença durante a administração da emissão.

O segundo ponto é o piso. Se operações de R$ 5 milhões param de pé em tranches, com o investidor integralizando conforme a necessidade do projeto, a securitização deixa de ser instrumento restrito a grandes emissores e passa a disputar espaço com o capital de giro bancário na faixa das empresas médias. O ponto de atenção é observar o “all-in” do projeto, visto que existem custos fixos com os demais prestadores de serviço, e as securitizadoras são a porta inicial para quem quer entrar nesse mercado, já que esse prestador de serviço consegue trazer o custo total.

Fontes: Let’s Money PodcastSou CapitalBM&C News

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