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IPO da SpaceX confirma US$ 1,75 tri; geração de caixa é desafio

Só a Starlink é lucrativa no Q1 2026. Perdas da IA e dos lançamentos puxaram o prejuízo a US$ 4,27 bi. IPO mira valuation de US$ 1,75 tri.

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Wirestock Creators / Shutterstock.com

A SpaceX protocolou na Nasdaq o maior IPO da história, com valuation de até US$ 1,75 trilhão. No mesmo trimestre em que divulgou o prospecto, a companhia de Elon Musk registrou prejuízo líquido de US$ 4,27 bilhões, com apenas um dos três segmentos operando no azul.

SpaceX: Q1 2026

Indicador Valor
Receita total US$ 4,69 bi (+15,4% a.a.)
Prejuízo líquido US$ 4,27 bi
Gastos em P&D US$ 3,51 bi (+125,7% a.a.)
Infraestrutura de IA (GPUs e cloud) US$ 1,47 bi

Balanço Q1 2026 divulgado no prospecto do IPO. Fonte: Open Magazine

A Starlink sustenta, a IA sangra

O prospecto deixa claro o desequilíbrio interno: 70% da receita vêm da Starlink, o único segmento com resultado positivo. O braço de lançamentos de foguetes, símbolo da empresa, queima caixa. E o segmento de inteligência artificial, que engloba o Grok e o X, acumulou sozinho quase US$ 7,7 bilhões em despesas de capital no trimestre, enquanto a base de usuários da Starlink mais do que dobrou em um ano. No acumulado de 2025, a empresa gerou cerca de US$ 8 bilhões em caixa, número expressivo em termos absolutos, mas que coloca o valuation pedido em perspectiva: segundo cálculos do professor Aswath Damodaran, da NYU Stern School of Business, para remunerar investidores ao preço do IPO a SpaceX precisaria faturar no mínimo US$ 193 bilhões imediatamente. Se o equilíbrio vier só em cinco anos, a cifra sobe para US$ 271 bilhões.

“A questão de ‘valuation’ é sempre difícil de justificar. Como você explica US$ 8 bilhões de geração de caixa para um valuation de US$ 1 trilhão? Esse que é o ponto mais difícil”, avaliou William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue. O especialista reconhece, porém, os ativos reais por trás da empresa: a SpaceX controla 80% do mercado global de lançamento de satélites, e a Starlink opera em regiões onde nenhuma outra infraestrutura existe. Em paralelo, as apostas de IA de Musk consomem capital crescente: o xAI captou US$ 20 bilhões no início de 2026 e a empresa, que perdeu 9 dos 11 cofundadores originais em sua reformulação, segue expandindo infraestrutura de GPU e data centers. “A Starlink tem uma vantagem muito grande. E o mercado endereçável, se tudo der certo, pode ser enorme. Esse otimismo é o que sustenta o valuation”, disse Castro Alves.

No Brasil, a gestora Hurst Capital estruturou acesso de investidores à SpaceX a um valor de US$ 1,5 trilhão. Com o IPO previsto para estrear entre US$ 1,75 e US$ 2 trilhões, esses investidores já acumulam entre 17% e 33% de valorização antes de a empresa sequer começar a negociar em bolsa, afirmou Fábio Guerra, sócio da gestora. A oferta, se bem-sucedida, superaria o recorde da Saudi Aramco, que captou US$ 29 bilhões em 2019, e abriria caminho para outras ofertas de alto valuation esperadas no setor de IA nos próximos meses.

O que observar

A precificação do IPO exige que o investidor assuma premissas que ainda não estão dadas: colonização de Marte, data centers orbitais, expansão contínua da conectividade. “A conta pode fechar matematicamente. Mas ela depende das premissas que você acredita e, principalmente, da taxa de desconto que você aplica. Quem acredita na colonização de Marte com uma taxa baixa chega ao trilhão. Quem não acredita, desconta tudo e o valor desmorona”, explicou Heitor Carlos Campani, professor da Coppead/UFRJ. Para fundadores e gestores que já entraram antes do IPO, as premissas são um exercício de crença calculada. Para o investidor de varejo, o risco é assimétrico.

Outro ponto é a estrutura de governança: Elon Musk manterá controle majoritário de votos após a oferta, o que classifica a empresa como controlled company pelos critérios da Nasdaq, isentando-a de certos requisitos de governança corporativa. Em companhias onde o fundador retém poder de voto irrestrito, o historial mostra que resultados e gestão raramente seguem a lógica dos acionistas minoritários. Vale acompanhar se o prospecto traduz a ambição narrativa em metas operacionais verificáveis, e com que frequência a empresa vai prestar contas ao mercado público.

Fontes: Valor InvesteOpen MagazineLet’s MoneyLet’s Money

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