A ação da Stone caiu 20% em pouco mais de um mês após guidance abaixo do esperado para 2026 e 2027. A 5,7x o lucro projetado, o papel negocia no menor múltiplo do setor de pagamentos. O gatilho: a transição de maquininha para banco ainda não convenceu o mercado, mesmo com lucro de R$ 2,5 bilhões em 2025.
Stone: retrato financeiro (2025)
| Indicador |
Dado |
| Lucro líquido 2025 |
R$ 2,5 bi (+17,5%) |
| ROE |
26% |
| P/E 2026 |
5,7x (menor do setor) |
| Carteira de crédito |
R$ 2,8 bi (dobrou vs. 2024) |
| Depósitos não remunerados |
~R$ 10 bi |
| Market share PMEs (pagamentos) |
~20% |
Fonte: Brazil Journal
Pagamentos sob pressão: o desafio no core da Stone
O resultado do quarto trimestre de 2025 acendeu o alerta: lucro ajustado de R$ 707 milhões (+12%), com TPV de R$ 151 bilhões (+5%), veio acompanhado de churn elevado e guidance abaixo das expectativas do mercado. A empresa projetou lucro bruto de R$ 6,6 bilhões a R$ 7 bilhões para 2026 e de R$ 7,2 bilhões a R$ 8,3 bilhões para 2027, com crescimento de TPV na casa de 5%, abaixo do que analistas esperavam.
No mercado de adquirência, a Stone detém cerca de 20% do volume entre PMEs, seu segmento principal. Mas a dinâmica competitiva é intensa: incumbentes como a Rede (Itaú) disputam liderança em volume, e o avanço do canal online, onde a Stone tem menor presença, pressiona margens. A receita segue desproporcional ao core de pagamentos, segmento competitivo com tendência de compressão de margem no longo prazo.
De maquininha a banco: a aposta de Mateus Scherer
O novo CEO Mateus Scherer, que assumiu em março de 2026 após a saída de Pedro Zinner, deixou clara a direção: “Estamos reorganizando para que a empresa se pareça cada vez mais com um banco, não uma maquininha que faz outras coisas.” A carteira de crédito dobrou em 2025 para R$ 2,8 bilhões, e os depósitos não remunerados alcançaram R$ 10 bilhões, gerando cerca de R$ 1,5 bilhão em receita financeira a taxas de 15%. O market share em crédito e banking, porém, ainda é de 1% a 2%, contra um mercado endereçável que a Stone estima em R$ 100 bilhões em receita divididos entre três verticais. No segmento de crédito para PMEs, fintechs como a Cora já disputam espaço com propostas semelhantes.
Para amortecer a transição, a Stone destinou R$ 3,1 bilhões da venda da Linx para recompra de ações e dividendos. O Citi estima dividend yield de 17%, o que pode sustentar o papel enquanto os novos negócios ganham escala.
O que observar
O desconto de 5,7x lucro para uma empresa com ROE de 26% e crescimento de dois dígitos sugere que o mercado precifica risco de execução na diversificação, não deterioração do negócio atual. A questão central é velocidade: adquirentes com margens em compressão precisam escalar banking e crédito antes que o core encolha. Com 1-2% de share em serviços financeiros e um mercado endereçável de R$ 100 bilhões, o espaço existe. Mas a conversão de base de pagamentos em base de banking exige produto, risco de crédito calibrado e competição com incumbentes que já operam com balanço. Vale acompanhar se o ritmo de expansão da carteira de crédito se mantém sem deterioração de inadimplência, e se o retorno de capital ao acionista segura o papel durante a travessia.
Fontes: Brazil Journal • CNN Brasil • Bloomberg Línea • Let’s Money