A Visa quer tornar a fraude cara demais para ser sustentável. Em entrevista à PYMNTS, James Mirfin, vice-presidente sênior e head global de soluções de risco e identidade da Visa, descreveu como a empresa está integrando inteligência artificial em toda a cadeia de pagamentos para inverter a economia do crime digital. “Fraude se tornou um negócio, uma economia”, disse Mirfin.
Visa: inteligência embarcada contra fraude
| Camada |
O que a Visa faz |
| Provisionamento |
Scores de risco + tokenização antes da transação |
| Autenticação |
IA em nível de rede cruza sinais entre etapas |
| Autorização |
Visa Risk Manager + Featurespace (analítica comportamental) |
Fonte: PYMNTS
Fraude escalável contra defesas fragmentadas
Mirfin apontou agentes de IA, deepfakes e clonagem de voz como ferramentas que permitem a criminosos escalar golpes com volume e sofisticação inéditos. “Esses caras são pacientes”, disse, explicando que credenciais roubadas são testadas, arquivadas e revendidas meses depois, quando consumidores já baixaram a guarda. As perdas globais com fraude de identidade superaram US$ 50 bilhões em 2025, e indicadores iniciais apontam que 2026 deve superar esse número.
Do lado da defesa, bancos enfrentam uma assimetria estrutural: fraudadores pivotam rápido porque podem; bancos se movem com cautela porque devem. “Bancos não são conhecidos por serem rápidos”, disse Mirfin. A fragmentação dos meios de pagamento agrava o problema. Consumidores transitam entre cartões, pagamentos instantâneos e outros trilhos assumindo que as mesmas proteções se aplicam a todos, o que dificulta determinar intenção e aumenta falsos positivos e disputas de pagamento.
IA embarcada em vez de defesa pontual
A estratégia da Visa é integrar inteligência em todo o fluxo de pagamento, em vez de adicioná-la num ponto isolado. No provisionamento, scores ajudam emissores a avaliar risco quando credenciais são adicionadas a carteiras digitais. Na transação, modelos de IA em nível de rede conectam sinais de autenticação à autorização para que emissores tomem decisões automatizadas em tempo real.
O Visa Risk Manager permite que bancos ajustem regras sem reengenharia extensa. A aquisição da Featurespace adicionou analítica comportamental adaptativa, que traça perfis do comportamento normal de clientes legítimos, complementando a amplitude da rede com contexto mais profundo. Segundo a Featurespace, a implementação do ARIC Risk Hub com a aliança bancária Eika Gruppen, na Noruega, reduziu perdas com phishing em 90% em 2024 em relação a 2023.
O que observar
A tese de inverter a economia da fraude, tornar o custo de execução maior que o retorno, é elegante mas depende de cobertura ubíqua. Fora das redes de cartão, pagamentos instantâneos e transferências diretas operam com camadas de proteção diferentes, muitas vezes mais frágeis. A eficácia do modelo se testa justamente nos trilhos que a bandeira não controla. No Brasil, onde golpes digitais já desviaram R$ 710 milhões via Pix, a assimetria entre proteção em cartão e em pagamento instantâneo é particularmente visível.
A adição de ferramentas de analítica comportamental sinaliza que dados de rede sozinhos não bastam. Entender o que um cliente normalmente faz é a camada que diferencia falso positivo de fraude real. Se esse modelo escalar para além do ecossistema de cartão e alcançar pagamentos instantâneos e open finance, a promessa de tornar fraude inviável ganha substância. Enquanto ficar restrito à rede própria, criminosos simplesmente migram para trilhos menos protegidos.
Fontes: PYMNTS • Fortune • Biometric Update • Let’s Money