A Visa quintuplicou os projetos de consultoria para cartão PJ em 2025 em relação ao ano anterior, enquanto o estoque de cartões de crédito para pessoa física supera 220 milhões no Brasil, número acima da população estimada do país, segundo o Relatório de Cidadania Financeira 2025 do Banco Central.
PF saturado, cartão PJ em aberto
| Indicador |
Dado |
| Cartões de crédito PF ativos no Brasil |
220 mi+ |
| Projetos de consultoria PJ da Visa (2025 vs. 2024) |
5x |
| Emissores PJ atendidos pela Visa (2025 vs. 2024) |
3x+ |
| Bancos que PME conhece em média |
10 |
| Bancos onde PME tem conta |
4 |
| Bancos que PME usa efetivamente |
2 |
Fonte: Valor Econômico e BC (RIF 2025)
O que a pesquisa revela sobre o cartão PJ
A Visa conduziu pesquisa com 3.000 pequenas e médias empresas para mapear o comportamento financeiro do segmento. O resultado revela uma pirâmide de relacionamento bancário: as PMEs conhecem, em média, 10 instituições, têm conta em 4 e usam apenas 2 no dia a dia. O principal obstáculo apontado é o limite de crédito do cartão corporativo, sistematicamente inferior ao do cartão pessoal do próprio sócio.
O dado contraintuitivo que a empresa destaca é o efeito cruzado: elevar o limite do cartão PJ tende a aumentar também o uso do cartão PF do mesmo cliente. Para o emissor, o resultado é positivo em ambos os lados da relação. O cartão PJ deixa de ser produto isolado e passa a funcionar como indutor de maior engajamento com toda a plataforma de crédito do emissor.
Como a Visa estrutura o segmento PJ
A empresa reestruturou as operações de consultoria para clientes PJ no Brasil. Em 2025, os projetos quintuplicaram e os emissores atendidos mais que triplicaram em relação a 2024. A rede Visa cobre 175 milhões de estabelecimentos comerciais globais, com mais de 200 soluções baseadas em IA disponíveis via API para emissores que queiram personalizar produtos PJ.
No plano de infraestrutura, a Visa aportou R$ 15 milhões na Celero em março de 2026, startup que usa dados de open finance para estruturar crédito a PMEs. A empresa também firmou parceria com a Kobold, gestora que lançou a plataforma Kob voltada a transações B2B digitais. A Visa já vinha avançando nessa direção com a solução de pagamento por fatura entre empresas. Fintechs de dados têm papel central nesse processo: a infraestrutura de crédito para PMEs depende de combinar dados transacionais e de open finance para calibrar limites com precisão.
O que observar
O movimento em direção ao cartão PJ é, por enquanto, mais de posicionamento estratégico do que de execução em escala. A saturação do mercado PF cria o incentivo, mas o limite de crédito permanece o gargalo central: sem ampliar o crédito disponível para pessoas jurídicas, a oferta de novos produtos não resolve o problema que os próprios dados das PMEs apontam. O teste real será a capacidade de emissores usarem dados de open finance e histórico de faturamento para calibrar limites PJ de forma diferente do padrão conservador histórico.
O intervalo entre conhecer 10 bancos e usar 2 também revela algo sobre concentração financeira: as PMEs não estão dispersas entre muitos fornecedores, estão concentradas por questões de conveniência e crédito. Capturar share of wallet nesse contexto depende menos de lançar novos produtos e mais de simplificar o acesso ao crédito e reduzir a fricção na gestão financeira do dia a dia.
Fontes: Valor Econômico • Banco Central (RIF 2025) • Let’s Money