A proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, deve incluir a devolução de valores suficientes para cobrir os rombos nos fundos de pensão estaduais e municipais que investiram no banco liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. A informação é da coluna Malu Gaspar, no jornal O Globo. O prejuízo dessas previdências, segundo o blog, passa de R$ 3 bilhões.
Os fundos de pensão no caso Master
| Fundo |
Aporte |
| Rioprevidência (RJ) |
R$ 2,6 bilhões (TCE-RJ) |
| Amprev (AP) |
R$ 400 milhões |
| Previdência do Amazonas |
R$ 50 milhões |
| 3 Estados + 15 municípios (letras financeiras, out/2023 a dez/2024) |
R$ 1,87 bilhão |
Aportes por fundo. Fontes: O Globo e Tribunal de Contas do Estado do Rio.
O mapa dos aportes aos fundos de pensão
Segundo dados do Ministério da Previdência Social citados pelo blog, ao menos três Estados e 15 cidades investiram, juntos, R$ 1,87 bilhão em letras financeiras emitidas pelo banco entre outubro de 2023 e dezembro de 2024. O Rioprevidência, fundo de pensão do Rio de Janeiro, concentrou sozinho mais da metade dos aportes totais dos 18 fundos estaduais e municipais, com R$ 2,6 bilhões somando letras financeiras e outros papéis do grupo, segundo cálculos do Tribunal de Contas do Estado do Rio.
Em fevereiro, a Polícia Federal prendeu Deivis Marcon Antunes, ex-diretor-presidente do Rioprevidência, pelo papel atribuído a ele nas aplicações. De acordo com o Ministério Público do Rio, o fundo credenciou o Master para receber recursos no dia seguinte à posse de Antunes, e o primeiro aporte ocorreu em menos de duas semanas. No Amapá, a Operação Zona Cinzenta mirou dirigentes da Amprev pelo aporte de R$ 400 milhões. A PF investiga se o então presidente da autarquia, Jocildo Silva Lemos, sofreu pressão para autorizar a aplicação apesar do parecer técnico da Caixa Econômica Federal que apontava alto risco de solvência no banco.
Por que as letras ficaram expostas
As letras financeiras são títulos de renda fixa de alto risco e, diferentemente dos CDBs, não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos. Com a liquidação extrajudicial do banco decretada pelo Banco Central, o BC impôs sigilo de oito anos sobre o processo, e os investidores de letras ficaram sem a rede de proteção que cobre depositantes comuns.
Em análise ao podcast Let’s Money em 2025, um analista de mercado gravado no dia da operação da Polícia Federal descreveu o descasamento entre ativo e passivo como o gatilho do colapso: o Master captava a 140% do CDI via CDBs de curto prazo e investia em ativos ilíquidos como precatórios e FIDCs. No caso dos fundos de pensão, a dinâmica se repetiu pela camada das letras financeiras, que funcionaram como funding adicional sem a contrapartida do FGC. Uma auditoria do Ministério da Previdência Social obtida pelo blog encontrou documentos “idênticos” usados para habilitar o Master em pelo menos três municípios, indicando que autarquias “terceirizaram indevidamente” a etapa de avaliação.
O que observar
O primeiro teste é o valor. O ressarcimento proposto pela defesa ainda precisa ser aceito pelos investigadores, que também definirão multas e benefícios. Vale acompanhar se a eventual homologação prioriza a devolução aos fundos ou o pagamento de multas ao erário, e se o rastreamento de recursos no exterior conseguirá cobrir o rombo antes que o patrimônio fora do país perca valor.
A segunda frente é regulatória. Categorias de atores mais expostas, como regimes próprios de previdência municipal, comitês de investimento terceirizados e autarquias estaduais, podem ter que rever critérios de due diligence, limites de concentração por emissor e exigência de parecer técnico independente antes de novas aquisições. O caso se soma ao debate mais amplo sobre a ampliação do perímetro regulatório, recolocado na mesa nesta semana pela própria autoridade monetária, que mira estender sua supervisão sobre instituições financeiras não bancárias.
Fontes: O Globo (Malu Gaspar) • CNN Brasil • Gazeta do Povo • Let’s Money Podcast: Banco Master e FGC