A securitizadora Gaia Impacto levantou R$ 5,3 milhões junto a 492 investidores, e o dinheiro vai para a Crédito Solidário, organização de microcrédito da Grande São Paulo, relatou a colunista Mariana Barbosa, do UOL. Segundo a coluna, a Gaia nunca tinha usado um certificado de recebíveis para bancar microcrédito.
Como ficou a emissão da Gaia para o microcrédito
Item
Condição
Valor captado
R$ 5,3 milhões
Investidores
492
Aporte mínimo
R$ 1 mil, pela plataforma Altx
Prazo
Cinco anos
Rendimento
16% ao ano
Carência
12 meses até o início do pagamento de juros
Principal
Pago com os juros a partir do 48º mês
Alcance esperado
Até 1,2 mil empreendedores
Condições da operação, segundo a coluna de Mariana Barbosa. Fonte: UOL
Um título de varejo para o microcrédito
A originação coube à própria Crédito Solidário, que já se chamou Banco do Povo. A distribuição ocorreu na Altx, plataforma voltada a aplicações alternativas, com piso de R$ 1 mil. Remuneração de 16% ao ano por cinco anos: os juros só começam a ser pagos depois de 12 meses, e a devolução do principal fica para o 48º mês em diante.
Pela contagem da coluna, esta é a 17ª operação da Gaia voltada a impacto social. Desde 2020, a empresa soma R$ 180 milhões levantados, com recursos que chegaram a cooperativas do MST, a projetos imobiliários de aluguel social e à Chico Rei, fabricante de camisetas que produz em presídios. “Queremos que essa seja a primeira de muitas operações”, disse João Paulo Pacífico, da Gaia.
Fundada em Santo André (SP) em 1998, a Crédito Solidário soma 133 mil tomadores atendidos na Grande São Paulo. 60% do público é feminino e 40% ganha até um salário mínimo. O tíquete médio é R$ 4.500, liberado em grupos solidários. A taxa de inadimplência, medida por atrasos que vão de 30 a 180 dias, está em 4%, e a perda efetiva, com atrasos acima de 180 dias, fica em 1%. A expectativa é que a captação chegue a até 1,2 mil pequenos empreendedores.
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Por que as microfinanças ficam longe do mercado de capitais
A coluna trata a operação como a estreia de uma instituição de microfinanças no mercado de capitais do país. O funding tradicional do setor vem dos bancos: pela regra do microcrédito produtivo orientado, até 2% dos depósitos compulsórios, dinheiro que os bancos precisam deixar no Banco Central, podem ser direcionados ao segmento. Entre os bancos, o Itaú ganhou participação no microcrédito desde 2021, mas a coluna relata que muitas instituições preferem repassar esses recursos aos poucos bancos que operam essas linhas ou deixá-los parados.
“Uma das dificuldades para acessar o recurso do compulsório é a baixa capacidade que as instituições têm de captar, dado que a análise de crédito dos bancos é baseada no patrimônio das Oscips”, disse à coluna Fabio Maschio, CEO da Crédito Solidário. Na estrutura montada com a Gaia, a avaliação considerou o potencial de alavancagem, medido pelo número de tomadores que o dinheiro pode atender.
Fora do Brasil, a coluna cita a cooperativa holandesa Oikocredit, cujo ingresso mínimo é de 200 euros e que remunera o investidor em 2% anuais, e a Kiva, plataforma em que pessoas físicas emprestam direto a empreendedores com piso de US$ 25. No próprio site, a Crédito Solidário anuncia uma união com a Kiva.
O que observar
O primeiro teste é de prazo: com carência de um ano e um principal que só começa a voltar no 48º mês, o fluxo das parcelas dos microempreendedores precisa sustentar um cupom de 16% ao ano até o quinto ano. Vale acompanhar se a inadimplência se mantém no patamar atual com o volume maior.
O segundo é de escala: se outras securitizadoras e Oscips repetirem o desenho, a captação com pessoas físicas pode virar um canal paralelo ao compulsório. Também fica no radar o projeto que reajusta o teto do microcrédito, aprovado na CAE do Senado em julho e enviado à Câmara.