O Banco Carrefour quer parar de ser lembrado só pelo cartão. Sob o comando de Felipe Gomes, que chegou há três anos após meia década tocando a Ticket (do grupo francês Edenred), a instituição virou uma máquina de reestruturação e agora persegue um alvo maior: ser um banco multiproduto, com conta digital, crédito pessoal, seguros, adquirência e serviços a empresas.
A largada foi pela rentabilidade: régua de crédito mais dura, corte em operações de baixa escala e custo segurado abaixo da inflação. O giro de chave, porém, veio em 2024, com a união das três bandeiras do grupo (Atacadão, Sam’s Club e Carrefour), que até então rodavam isoladas, cada cartão preso à sua própria rede.
A aposta atende pelo nome de transversalidade: todo cartão passa a valer em toda loja do grupo. “Quando a gente viu que a força não era vertical, mas transversal, percebemos que o cliente estava gastando fora o que poderia gastar dentro de outra unidade do grupo”, disse Gomes ao Brazil Journal.
O efeito apareceu no bolso. Quem passou a comprar nas três bandeiras elevou o gasto médio em 200%, e o cartão do banco perdeu 7 pontos percentuais de uso em concorrentes. No total, o lucro líquido virou quatro vezes maior em três anos, batendo R$ 300 milhões, enquanto o saldo de crédito engordou 56%, a R$ 26,4 bilhões.
Banco Carrefour em três anos
| Lucro líquido | R$ 300 mi (quadruplicou) |
| Carteira de crédito | R$ 26,4 bi (+56%) |
| Gasto médio do cliente multibandeira | +200% |
| Uso do cartão em concorrentes | -7 pontos percentuais |
| Consumidores nas lojas x clientes do banco | 65 mi x 7,2 mi |
Resultados e escala do Banco Carrefour após três anos de reestruturação. Fonte: Brazil Journal
A base da loja como oportunidade
O número que resume a ambição está na distância entre dois públicos: de um lado, algo como 65 milhões de pessoas circulam mensalmente pelas lojas do grupo; do outro, o banco atende só 7,2 milhões. Fechar esse vão é o coração do plano. “A gente precisa crescer, e não só crescer nos produtos atuais, mas criar uma estratégia mais ampla e multiproduto”, afirmou o executivo.
A primeira ponte para essa base já está em piloto: uma conta digital para a gente que circula pelas lojas e ainda não teve cartão aprovado. A lógica lembra a de outros bancos de varejo que transformam a base de clientes em plataforma: começa simples e vai empilhando produto. “É o início de um relacionamento mais simples, com menos risco para os dois lados. Depois, eu posso entrar com outros produtos financeiros”, disse Gomes. Hoje, 82% da base ativa usa os apps do grupo e quatro em cada cinco empréstimos saem pelo celular, embora dois em cada três novos clientes ainda entrem pela loja física.








