O caso Banco Master já custou R$ 60 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), consumindo metade do caixa de R$ 121 bilhões que o fundo tinha em junho de 2025. Bancos associados vão antecipar 84 meses de contribuição em três anos, e o BC prepara a maior reforma nas regras do fundo em três décadas, com impacto direto na rentabilidade de CDBs.
IMPACTO NO FGC | NÚMEROS DO CASO MASTER
| Liquidez do FGC (jun/2025) |
R$ 121,1 bi |
| Custo do grupo Master (Master SA, Investimentos, Múltiplo, Will, Pleno) |
-R$ 60 bi |
| Pedido pendente do BRB |
-R$ 4 bi |
| Antecipação 60 meses (2026) |
+R$ 30-35 bi |
| Antecipação 24 meses (2027-28) |
+R$ 12-16 bi |
Fonte: Valor Econômico
84 meses antecipados e alíquota extra no radar
O FGC aprovou em fevereiro a antecipação de 60 meses de contribuição em 2026, equivalente a R$ 30-35 bilhões. Para 2027 e 2028, mais 24 meses serão antecipados, adicionando R$ 12-16 bilhões. O fundo também aprovou a possibilidade de uma alíquota extraordinária de 0,06 ponto percentual ao ano, ferramenta que será avaliada no segundo semestre. Para aliviar o impacto na liquidez do sistema, o BC permitiu deduzir as contribuições antecipadas dos recolhimentos compulsórios, liberando até R$ 30 bilhões em 2026. A última vez que o regulador adotou estratégia semelhante foi na crise financeira global de 2008.
Com cinco bancos do grupo liquidados (Master SA, Master de Investimentos, Master Múltiplo, Will Bank e Pleno), o impacto nos lucros dos bancos em 2026 pode chegar a 1,9%. Se o FGC liberar mais R$ 4 bilhões ao BRB, que fez o pedido na sexta-feira, a conta sobe ainda mais.
Reforma nas regras mira alavancagem e rentabilidade de CDBs
O Conselho Monetário Nacional já adotou mudanças nas regras do FGC que entram em vigor em junho: a contribuição adicional para bancos mais arriscados dobrou de 0,01% para 0,02%, e o gatilho de alavancagem caiu de 75% para 60% dos depósitos cobertos. Se o volume de depósitos garantidos ultrapassar dez vezes o patrimônio líquido ajustado, o excedente deverá ser aplicado obrigatoriamente em títulos públicos federais. Na prática, CDBs que pagavam 130% do CDI tendem a se tornar exceção, com o teto provável recuando para a faixa de 115% a 120%.
O BC admite que mais ajustes serão necessários. As discussões incluem limitar a rentabilidade dos CDBs cobertos pelo FGC a 100% do CDI, exigir carteiras de crédito e títulos com qualidade e liquidez mínimas, e criar regras mais rígidas para plataformas de investimento que distribuem CDBs. Ao mesmo tempo, o regulador pondera que o acesso ao fundo é essencial para manter o equilíbrio competitivo entre instituições menores e grandes bancos de varejo.
O que observar
O caso redefine o modelo de funding de instituições menores. O canal corretoras-CDBs-FGC, que permitia captar barato de pessoas físicas usando a garantia do fundo como argumento de marketing, entra em revisão. Em episódio do podcast Let’s Money gravado em 2025, uma analista de mercado financeiro já descrevia o mecanismo: a garantia do FGC transferia o ônus de segurança do investidor para o fundo, e os bancos exploravam isso para captar com taxas elevadas e investir em ativos ilíquidos. A reforma em curso tenta fechar esse ciclo.

O equilíbrio que o BC precisa calibrar é delicado: regras rígidas demais podem concentrar ainda mais o mercado nos grandes bancos, eliminando a principal vantagem competitiva das instituições menores. Regras frouxas demais repetem o risco. A decisão sobre a alíquota extra no segundo semestre será o primeiro sinal de qual direção prevalece.
Fontes: Valor Econômico • Agência Brasil • Bora Investir • Let’s Money Podcast