A operação financeira que a CPFL Energia montou dentro de casa alcançou R$ 100 milhões de Ebitda e ROE de 33,2% em 2025, combinando a fintech Alesta e a CPFL Total. A segunda maior distribuidora de energia do Brasil, avaliada em R$ 59,1 bilhões na B3, agora prepara o modelo de embedded finance para ser exportado a empresas de água, gás e outras distribuidoras de energia.
As três frentes da operação financeira CPFL
| Frente |
Operador |
Números e período |
| Parcelamento de faturas |
Alesta |
353 mil contratos, R$ 353 mi em parcelamentos (2021 a 2025) |
| Antecipação de recebíveis |
Alesta |
R$ 1,5 bi em volume, 600 fornecedores (2025) |
| Seguros e assistências |
CPFL Total |
1,3 mi cobranças/mês, tíquete R$ 30-40 (2025) |
Dados entre 2021-2025. Fonte: NeoFeed
Da inadimplência à plataforma financeira
A Alesta é uma Sociedade de Crédito Direto (SCD) que nasceu em 2021 para resolver um problema interno: a inadimplência na conta de luz. O cliente negativado parcela débitos em até 15 vezes pelo celular, em um processo que hoje leva cinco minutos. A operação funciona com R$ 100 milhões em capital próprio, sem FIDCs ou captação externa. Entre 2021 e 2025, R$ 207 milhões em débitos que teriam alta probabilidade de corte de energia foram quitados via parcelamento.
A segunda frente, antecipação de recebíveis para fornecedores, saltou de R$ 933 milhões para R$ 1,5 bilhão em volume entre 2022 e 2025, enquanto a base de fornecedores cresceu de 60 para 600. A terceira perna, de seguros e assistências na fatura de energia, movimenta 1,3 milhão de cobranças mensais com menos de 40 reclamações por mês. A CPFL já adota o Pix Automático para contas de luz, expandindo os canais de pagamento integrados à operação financeira.
Embedded finance em utilities vira corrida
“Da mesma maneira que embarco uma distribuidora do grupo, posso embarcar uma distribuidora de outro grupo”, disse Fernando Rocha Antonaglia, diretor executivo da Alesta e da CPFL Total, ao NeoFeed. O modelo “plug and play” de arquitetura aberta mira empresas de água, gás e energia de outros grupos. A inadimplência esperada de 20% na carteira de crédito é precificada no modelo: “Preciso que, de 10, oito paguem”, afirmou.
A CPFL não está sozinha. A Voltz, do Grupo Energisa, oferece conta digital, cartão e crédito com proposta similar. Em entrevista ao podcast Let’s Money, Daniel Orlean, co-CEO da Voltz, detalhou a tese de que o diferencial de fintechs de utilities está na intersecção de três ativos que fintechs standalone não possuem: dados proprietários de histórico de pagamento de energia, canais próprios de distribuição e meio de cobrança priorizado na fatura. Neoenergia e Sabesp também têm iniciativas de parcelamento de contas em parceria com empresas de pagamento.
O que observar
A operação financeira embarcada em concessionárias de infraestrutura tem uma vantagem estrutural que poucas fintechs replicam: a conta de luz é uma das últimas a ser cortada pelo consumidor, o que torna a fatura um canal de distribuição com taxa de abertura e recorrência que nenhum app standalone consegue igualar. O desafio está no teto de receita por cliente. Com conta média de R$ 120 a R$ 150, o espaço para empilhar produtos financeiros é limitado. O próximo teste é se o modelo “plug and play” escala de fato para outras utilities, onde a dinâmica de inadimplência, regulação e perfil de cliente pode ser substancialmente diferente da energia elétrica.
Fontes: NeoFeed • CPFL Energia • Let’s Money • Let’s Money Podcast