O HSBC lançou o Tokenized Deposit Service (TDS) nos Estados Unidos, serviço que permite a clientes corporativos mover dinheiro 24 horas por dia, dentro do país e cross-border, usando depósitos bancários tradicionais representados por tokens digitais. Os EUA entram como quinto mercado, somando-se a Hong Kong, Singapura, Luxemburgo e Reino Unido. O movimento acontece num momento em que o Brasil recuou no Drex e redesenhou o projeto sem blockchain e sem tokenização inicial.
A corrida global dos bancos por depósitos tokenizados
| Banco |
Produto |
Status |
| JPMorgan |
JPM Coin / JPMD |
Em produção para clientes institucionais |
| Citi |
Token Services |
Operação multi-jurisdição para Fortune 500 |
| BNY |
Tokenized Deposits |
Lançado em jan/2026 |
| HSBC |
Tokenized Deposit Service |
HK, SG, LU, UK e agora EUA |
| Brasil |
Drex |
Redesenhado sem blockchain em 2025 |
Quatro grandes bancos globais já operam depósitos tokenizados enquanto o projeto público brasileiro recuou. Fonte: PYMNTS
O que o HSBC colocou em operação
O TDS combina depósitos bancários tradicionais com trilhos baseados em blockchain, permitindo que clientes elegíveis transfiram recursos a qualquer hora, domesticamente e entre fronteiras, de centros de tesouraria para subsidiárias. O serviço é desenhado para integrar a infraestrutura de tesouraria e pagamentos que o cliente já usa e opera dentro dos frameworks regulatórios locais. Na prática, os depósitos em fiat são representados por tokens digitais, e as movimentações podem ser customizadas e executadas instantaneamente a partir dos sistemas do cliente.
“Nossos clientes operam através de mercados, moedas e fusos horários e estão buscando formas mais rápidas e transparentes de gerenciar liquidez e mover dinheiro sem adicionar complexidade operacional”, afirmou Tom Halpin, líder para América do Norte de global payments solutions do HSBC. Em setembro de 2025, o banco já havia expandido o TDS para transações cross-border e executado a primeira operação internacional em dólar entre Hong Kong e Singapura, para otimizar a tesouraria global da Ant International.
A corrida global que o Brasil não está correndo
O movimento do HSBC chega numa corrida em que quase todos os grandes bancos globais já disputam posição. O JPMorgan opera uma das plataformas mais maduras com o JPM Coin, usado para movimentação entre clientes institucionais em dólares e euros. O Citi tem o Token Services voltado a empresas Fortune 500 e, no fim do ano passado, estendeu a tokenização a euros com operação na Irlanda. O BNY lançou o próprio serviço de depósitos tokenizados em janeiro de 2026. A demanda é puxada por tesourarias corporativas sofisticadas que querem liquidação 24/7, menos constrições de liquidez intradia e fluxos cross-border simplificados.
O Brasil chegou a esse ponto por um caminho mais conturbado. O Drex foi desenhado como a primeira infraestrutura pública de tokenização do sistema bancário e envolveu consórcios com Itaú, Bradesco, Santander, BTG e outros grandes. Em 2025, porém, o TCU apontou falhas no blockchain do projeto e o Banco Central mudou o desenho. O projeto saiu do trilho original: o Drex foi redesenhado sem blockchain e sem tokenização inicial, agora focado em servir como plataforma para tokenização de ativos usados como colateral em operações de crédito. A integração entre Pix, Drex e Open Finance foi projetada pelo BC como horizonte de 2029.
Enquanto isso, os bancos brasileiros avançam individualmente. Itaú, Bradesco e Santander têm plataformas próprias de tokenização de ativos financeiros (CCBs, recebíveis, dívida privada), mas nenhum deles opera ainda um serviço de depósito bancário tokenizado no padrão que JPMorgan, Citi, BNY e HSBC colocaram em produção.
O que observar
O desenho institucional brasileiro sempre foi de infraestrutura pública na camada de pagamentos: Pix, Open Finance e o próprio Drex nasceram como sistemas organizados pelo regulador. A corrida global de tokenized deposits está indo pelo caminho oposto, de infraestrutura privada controlada por cada banco e integrada entre eles via acordos bilaterais. Vale acompanhar se o Brasil vai tentar recuperar terreno via iniciativa pública relançada ou se bancos locais vão abandonar a espera pelo Drex e montar ofertas próprias, como fizeram os globais.
A pergunta que fica é sobre quem atende o corporativo multinacional no Brasil. Tesourarias de empresas globais com operação local passam a ter a opção de usar serviços de depósitos tokenizados de bancos globais para mover dólares 24/7 entre subsidiárias, inclusive nas que estão no país. Isso cria uma assimetria interessante: o Pix resolve o mercado doméstico com eficiência única no mundo, mas a camada cross-border corporativa tende a ficar capturada por bancos globais com infraestrutura tokenizada própria. O teste será ver se essa camada vira gap permanente ou se o mercado brasileiro reage com uma solução de produção até o fim de 2026.
Fontes: PYMNTS • Let’s Money Podcast: PIX vs Stablecoin, com Ebury Bank