A Kalshi mantém o interesse no Brasil e diz que o “plano A” é negociar com o governo para reverter o veto que a tirou do país. Em entrevista à Bloomberg Línea no Web Summit Rio, a cofundadora Luana Lopes Lara rebateu a comparação com cassinos e afirmou que a plataforma transaciona mais de US$ 4 bilhões por semana.
A Kalshi em números
| Indicador |
Número |
| Volume transacionado |
+US$ 4 bi por semana |
| Crescimento (últimos 6 a 8 meses) |
15 vezes |
| Última captação (início de 2026) |
US$ 1 bi |
| Valuation |
US$ 22 bi |
| Fundação / início de operação |
2018 / 2021 |
Números da operação da Kalshi citados pela cofundadora. Fonte: Bloomberg Línea
Por que o Brasil barrou a Kalshi
A plataforma de mercados de previsão anunciou a entrada no país a partir de uma parceria com a XP, como primeiro passo da internacionalização. Logo depois, o Conselho Monetário Nacional publicou uma resolução que proibiu contratos ligados a eleições, esportes e outros eventos, liberando apenas eventos macroeconômicos, como inflação e Selic. Em seguida, o Ministério da Fazenda bloqueou cerca de 30 sites, incluindo a Kalshi, sob o argumento de que operam como bets. O Let’s Money mostrou como o acesso via XP seguiu com aval da CVM mesmo após o veto, e como a nova regra atingiu também a Polymarket.
“Proibir é o pior dos mundos para um governo: você perde a arrecadação de impostos, não tem proteção ao consumidor e perde o rastro do dinheiro”, afirmou Luana Lara, que também é COO da empresa. Segundo ela, o “plano A é trabalhar de forma construtiva com o governo brasileiro”, e o litígio que a Kalshi adotou nos Estados Unidos foi a última opção. Enquanto isso, a B3 recebeu aval da CVM para operar o primeiro mercado de previsão formal do país, restrito a investidores profissionais e a contratos ligados a Ibovespa, dólar e bitcoin.
A defesa contra a comparação com cassino
O centro do argumento de Luana é a mecânica do negócio. “Na Kalshi, nós não participamos dos trades. Nós somos uma bolsa, exatamente como o mercado de ações”, disse, comparando a operação a uma exchange em que um usuário negocia contra o outro, e não contra a casa. Ela afirma que a plataforma não tem incentivo para o cliente perder e cita limites de depósito, bloqueio temporário após perdas sequenciais e exclusão de campanhas de marketing para perfis de risco. Sobre a crítica de comportamento aditivo, sustenta que o índice de perda no varejo é menor que em daytrade de ações ou em casas de aposta.
A cofundadora atribui a resistência a “indústrias que se sentem ameaçadas” pela existência dos mercados preditivos, mas recuou ao ser questionada sobre eventual lobby das bets, dizendo não saber como o argumento surge. O embate ecoa as contestações que a empresa enfrenta de procuradores estaduais nos Estados Unidos, onde também é comparada a casas de aposta, apesar de operar sob licença federal da CFTC. No fôlego financeiro, a startup captou US$ 1 bilhão a um valuation de US$ 22 bilhões no começo do ano.
O que observar
O argumento mais forte da empresa para os reguladores é prático: banir um mercado não faz a atividade desaparecer, apenas empurra o volume para plataformas offshore, fora do alcance fiscal e de proteção ao consumidor. A pergunta que fica é se o caminho de diálogo construtivo reabre a porta no Brasil ou se a empresa repetirá aqui a rota de litígio que adotou nos Estados Unidos. Vale acompanhar o desenho regulatório: a janela aberta para benchmarks estritamente econômico-financeiros pode favorecer exchanges domésticas reguladas em detrimento das plataformas internacionais ligadas a eleições e esportes.
Para o ecossistema, o teste aparece nos próximos trimestres. Se um mercado de previsão regulado e doméstico ganhar tração com investidores profissionais, o regulador terá um caso concreto para calibrar o que liberar ao varejo. A linha divisória entre derivativo de hedging e aposta de entretenimento segue sendo o ponto que define quem pode operar e sob quais limites.
Fontes: Bloomberg Línea • Bloomberg Línea (B3) • Exame