O TikTok pediu ao Banco Central do Brasil duas licenças para operar como fintech: uma de instituição de pagamento (IP), para oferecer contas pré-pagas com saldo, recebimentos e pagamentos dentro do app, e outra de sociedade de crédito direto (SCD), que permite emprestar capital próprio ou conectar tomadores a credores. A informação é da Reuters, com base em duas fontes com conhecimento direto do processo.
As duas licenças que o TikTok pediu ao BC
| Licença |
O que permite |
Restrição |
| IP (Instituição de Pagamento) |
Contas pré-pagas, saldo em app, recebimentos, Pix |
Não pode conceder crédito |
| SCD (Sociedade de Crédito Direto) |
Empréstimo com capital próprio, plataforma de crédito |
Não capta depósitos do público |
Fonte: Reuters
A reunião em Brasília e o playbook chinês
Executivos da ByteDance, incluindo o head global de pagamentos Liao Baohua, se reuniram com o presidente do BC, Gabriel Galípolo, em Brasília nesta terça-feira, segundo a agenda pública do presidente. O TikTok não comentou se pretende lançar novos serviços financeiros ou apenas suportar e-commerce e monetização na plataforma.
O movimento replica a estratégia que a ByteDance já executa na China com o Douyin Pay, lançado em 2021 para competir com Alipay e WeChat Pay. Na versão chinesa, a integração entre conteúdo, marketplace e pagamento criou um circuito fechado: o usuário descobre o produto no vídeo, compra e paga sem sair do app. Em 2023, o TikTok tentou uma licença de pagamentos na Indonésia, mas foi barrado pelo regulador e precisou buscar parcerias locais.
131 milhões de adultos e R$ 200 bilhões em infraestrutura
O Brasil representa o maior mercado do TikTok na América Latina. A plataforma tinha 131 milhões de usuários acima de 18 anos no final de 2025, com anúncios alcançando 80% dos adultos do país, segundo a DataReportal. No fim do ano passado, a ByteDance anunciou investimento de mais de R$ 200 bilhões em um data center no Ceará, em parceria com a Omnia e a Casa dos Ventos.
A operação de e-commerce já está ativa: o TikTok Shop, lançado no Brasil em maio de 2024, movimenta cerca de US$ 2 milhões por dia, segundo analistas do BTG Pactual citados pelo Money Times. A adição de pagamentos e crédito fecharia o ciclo que conecta conteúdo, compra e financiamento dentro da mesma plataforma. É o que a Nubank já demonstrou no Brasil: escala de usuários convertida em serviços financeiros.
Em entrevista ao podcast Let’s Money, Bruno Balduccini, sócio do Pinheiro Neto Advogados, já apontava essa convergência: “Todas as empresas vão acabar sendo fintechizadas em algum momento.” Na ocasião, Balduccini descreveu a jornada do TikTok como um caso modelo de embedded finance, onde o serviço financeiro se torna invisível dentro da plataforma de conteúdo.
O que observar
A combinação IP + SCD é a mesma que permitiu a plataformas de mobilidade e super apps operarem pagamentos e crédito de forma integrada no Brasil. Se o BC aprovar, o TikTok se tornaria a primeira grande rede social global a operar como fintech regulada no país. A questão é se a base de 131 milhões de adultos se converte em usuários de serviços financeiros com a mesma velocidade que se converteu em audiência de vídeo curto.
Vale acompanhar como fintechs de crédito ao consumo e emissores de moeda eletrônica já estabelecidos vão reagir à entrada de um player com alcance publicitário em 80% da população adulta. O custo de aquisição de cliente para serviços financeiros dentro de uma plataforma de entretenimento pode ser estruturalmente menor que o de qualquer concorrente que depende de marketing externo. O teste real será a taxa de ativação: distribuição massiva sem uso recorrente não sustenta uma operação de crédito.
Fontes: Reuters • Money Times • CNBC • Let’s Money Podcast