A fintech Cora vai lançar maquininhas de cartão e tecnologia Tap to Phone para disputar o mercado de adquirência, apostando em custo operacional de R$ 14 por cliente para oferecer taxas abaixo dos concorrentes, segundo Igor Senra, co-fundador e CEO, em entrevista à Bloomberg Línea.
Cora em números
| Métrica |
Valor |
| Clientes ativos |
1,7 milhão |
| TPV (1T2026) |
~R$ 50 bilhões |
| Crescimento de receita (a/a) |
~50% |
| Custo de servir por cliente |
R$ 14 (vs. ~R$ 140 nas grandes instituições) |
| Atendimento automatizado por IA |
85% |
| Última captação |
US$ 116 mi, Série B (2021) |
Indicadores operacionais da Cora. Fonte: Bloomberg Línea
A aposta em adquirência
O produto está em fase beta, com parceiros pontuais, e a oferta atual se limita a link de pagamento. A expectativa é ampliar para maquininhas físicas e Tap to Phone, tecnologia que transforma o celular em terminal de pagamentos. O mercado alvo é amplo: segundo a Abecs, as transações com cartões no Brasil somaram mais de R$ 1,1 trilhão no primeiro trimestre de 2025, depois de alcançarem R$ 4,5 trilhões no ano anterior. A Cora entra num segmento disputado por PagBank, Mercado Pago, Stone, InfinitePay e SumUp, entre outros. “Esse produto sozinho vai ser maior do que toda a Cora em dois ou três anos”, afirmou Senra. “É um produto em que as pessoas têm uma alta sensibilidade a custo e nós iremos entrar com a possibilidade de derrubar o custo de maneira importante.”
Senra e seu sócio, Leonardo Mendes, conhecem o segmento: ambos foram fundadores da Moip, startup de meios de pagamento vendida à Wirecard em 2016 e posteriormente adquirida pela PagSeguro/PagBank em 2020. A experiência contribuiu para a validação rápida da tese de conta digital para PJ. “Se você for pensar que a dinâmica de banking é um jogo de xadrez, a conta digital é o tabuleiro. É o que permite que tudo aconteça, é lá que as informações afluem”, disse Senra.
Verticalização, IA e crédito
Em 2023, a Cora passou por um processo de verticalização, eliminando intermediários e assumindo a infraestrutura direta de Pix e boletos. Hoje, 100% das transações passam por modelos proprietários de IA para análise de risco, prevenção à lavagem de dinheiro e fraude, e 85% do atendimento ao cliente é resolvido de forma automatizada. A empresa saiu de menos de 1 milhão para 1,7 milhão de clientes e atingiu o breakeven um ano depois. “O nosso custo de servir os clientes é na casa de R$ 14,00, cerca de 10% do valor para as grandes instituições. Isso nos permite, com muito menos dinheiro, cobrar muito menos e lucrativo”, disse Senra.
A terceira vertical é o crédito, onde a liderança projeta triplicar o ARPU dos atuais R$ 200 para R$ 600, com produtos como capital de giro e antecipação de recebíveis de boleto. “Nós estamos falando de um negócio que hoje representa 20% do todo, mas que tem o potencial de ser três vezes maior do que o todo hoje”, afirma Senra. A última captação da empresa foi a série B de US$ 116 milhões em 2021, liderada pelo Greenoaks Capital, com participação de Tiger Global e Tencent. Novas rodadas estariam fora do radar, e o caixa seria “suficiente para as ambições”, segundo o executivo.
O que observar
A tese de custo operacional baixo como diferencial em adquirência é bem estabelecida entre fintechs digitais, mas o segmento exige gestão de hardware, logística de equipamentos e suporte físico que produtos puramente digitais não precisam operar. A questão central é se o modelo escala sem comprometer a eficiência quando o volume de maquininhas crescer. O mercado já conta com concorrentes digitais que também constroem sua proposta de valor em torno de eficiência operacional.
O outro ponto a acompanhar é o sequenciamento de verticais: a empresa abre adquirência enquanto crédito ainda representa 20% do total da receita e ainda não atingiu a escala projetada. Crescer duas frentes em paralelo com caixa próprio, sem novo capital externo, exige que a geração de caixa da conta bancária sustente os investimentos iniciais nas outras duas linhas. O ritmo de conversão da base de clientes PJ existente em usuários de adquirência será o principal indicador a acompanhar nos próximos trimestres.
Fontes: Bloomberg Línea • Let’s Money • Let’s Money • Let’s Money