A Tether congelou US$ 344 milhões em USDT em duas carteiras na rede Tron a pedido de autoridades americanas, incluindo a OFAC, elevando o total histórico de ativos bloqueados pela emissora a mais de US$ 4,4 bilhões em 2.300 casos de apoio a investigações no mundo inteiro.
Histórico de enforcement da Tether
Evento
Valor
Congelamento (abril 2026)
US$ 344 mi em 2 carteiras na Tron
Total histórico bloqueado
US$ 4,4 bi em 2.300 casos
Precedente (nov. 2023)
US$ 225 mi ligados a pig butchering no Sudeste Asiático
USDT em circulação
Maior stablecoin do mundo por volume
Dados de compliance da Tether. Fontes: PYMNTS e CoinDesk
Duas carteiras bloqueadas na Tron, OFAC no centro da operação
O congelamento foi distribuído entre duas carteiras: uma com aproximadamente US$ 213 milhões e outra com cerca de US$ 131 milhões, ambas na rede Tron. A Tether agiu em coordenação com o Office of Foreign Assets Control dos EUA e outras agências de aplicação da lei americanas. “Quando carteiras digitais são identificadas como ligadas à evasão de sanções, redes criminosas ou outras atividades ilícitas, a Tether pode restringir esses ativos”, disse a empresa em nota. “Esse trabalho se tornou parte rotineira da resposta da empresa a solicitações legais de autoridades nos EUA e no exterior.”
Para Paolo Ardoino, CEO da Tether, o argumento central é que a transparência das blockchains públicas cria um rastro rastreável que o dinheiro em espécie não oferece: “USDT não é um porto seguro para atividades ilícitas. Quando identificamos ligações credíveis com entidades sancionadas ou redes criminosas, agimos de forma imediata e decisiva.”
A empresa afirmou que eventos recentes mostraram as consequências de plataformas que não agem com rapidez. O USDT já foi usado como vetor de fuga em crimes domésticos: no Brasil, golpes que desviam Pix e convertem o valor em cripto utilizam precisamente a liquidez de stablecoins para dificultar o rastreamento antes da reversão.
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Kelp DAO e o reposicionamento no mercado de liquidação DeFi
O comunicado da Tether saiu dias após o maior exploit de DeFi de 2026: o ataque ao Kelp DAO em 18 de abril, que custou aproximadamente US$ 292 milhões ao protocolo de bridge cross-chain. Diferente de hacks anteriores que exploravam contratos inteligentes defeituosos ou chaves privadas roubadas, o ataque ao Kelp DAO manipulou a camada de mensagens do protocolo LayerZero, convencendo o cofre de que o atacante era o proprietário legítimo. Segundo análise da Chainalysis, o ataque foi atribuído ao grupo Lazarus, ligado à Coreia do Norte.
No mesmo período, a Tether anunciou um financiamento de US$ 147 milhões ao Drift Protocol, exchange DeFi que sofreu uma violação de segurança no início de abril, e firmou acordo para se tornar a nova camada de liquidação da plataforma. A operação substitui o papel que o Circle vinha exercendo como parceiro de liquidação do Drift, evidenciando uma disputa crescente entre os dois maiores emissores de stablecoins pela posição de infraestrutura nos protocolos DeFi. A Tether vem acelerando investimentos em parceiros estratégicos para expandir o uso do USDT além das trocas especulativas.
O que observar
O poder de congelar carteiras unilateralmente coloca os emissores de stablecoins em posição de quasi-reguladores: atuam como ponto de execução de ordens governamentais sem participação do sistema financeiro tradicional, sem mandado judicial prévio e sem contraditório imediato para os titulares das carteiras. À medida que o BC e a CVM avançam na regulação doméstica de stablecoins, a questão de quem pode acionar um congelamento e sob quais critérios tende a se tornar exigência regulatória explícita no Brasil, não apenas uma decisão comercial do emissor.
O movimento de substituição de um emissor de stablecoin por outro como camada de liquidação em protocolos DeFi é outro vetor a acompanhar: cada protocolo que adota uma stablecoin específica como base de liquidação aumenta o risco de concentração sistêmica, pois a decisão de congelar um endereço deixa de ser apenas compliance e passa a afetar a operação de protocolos inteiros que dependem daquele ativo como colateral ou camada de liquidez.