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Especialistas alertam para riscos após Copom cortar Selic

Pela 1a vez desde 2024, Copom cortou Selic com projecoes de inflacao piorando. Gestores veem aposta e alertam para desancoragem ate 2028.

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· 4 min

Atualizado em

Diego Grandi / Shutterstock.com

O Copom cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,5% ao ano no fim de abril, enquanto as projeções de inflação do horizonte relevante pioravam: a primeira vez, desde meados de 2024, que taxa e projeções caminham em direções opostas. Gestores e economistas chamam o movimento de “aposta” e alertam para riscos crescentes à credibilidade do colegiado.

Serviços subjacentes em aceleração

Período Média 3m anualizada e dessaz.
Dez/2025 4,74%
Fev/2026 5,41%
Mar/2026 5,32%
Abr/2026 (est. mercado) ~5,7%

Inflação de serviços subjacentes, média móvel de 3 meses, anualizada e dessazonalizada. Fonte: Valor Econômico

A inflação de serviços que o petróleo não explica

A narrativa dominante atribui a piora das expectativas ao choque do petróleo e à guerra no Oriente Médio. Mas a análise da Adam Capital contraria essa leitura: o Brasil registrou seu maior erro de projeção histórica do IPCA em fevereiro de 2026, antes do início do conflito, puxado pela inflação de serviços alimentada por estímulos fiscais ao longo de 2025.

“Tivemos o maior erro de projeção da série histórica do IPCA em fevereiro, antes da guerra começar, e isso foi, basicamente, causado pela inflação de serviços”, disse Juliano Cecílio, economista-chefe da Adam Capital. Para ele, o conflito atuou como uma “cortina de fumaça” que impediu o BC de identificar o problema central: uma economia aquecida o suficiente para manter a inflação de serviços em trajetória ascendente.

A média móvel de três meses dos serviços subjacentes anualizada e dessazonalizada subiu de 4,74% em dezembro para 5,41% em fevereiro e 5,32% em março. Para abril, algumas casas de mercado estimam nova aceleração, para a casa de 5,7%. Quando o conflito escalou e o mercado revisou suas projeções para a trajetória da Selic, o cenário de serviços resilientes já estava posto.

A função de reação que ficou mais difícil de ler

Para os economistas do BTG Pactual Tiago Berriel e Iana Ferrão, o problema não é o corte em si: é a opacidade do processo decisório. O julgamento qualitativo ganhou peso e as projeções perderam eficácia como bússola do ciclo. “Ficou menos claro qual deterioração de projeções, expectativas ou núcleos levaria o Copom a interromper o ciclo”, avaliam.

Desde o início da guerra, a projeção mediana do Focus para o IPCA de 2028 subiu de 3,50% para 3,64%, patamar que o próprio colegiado destacou com preocupação em sua comunicação recente. As projeções do FMI sobre o impacto do conflito em economias emergentes reforçam que o choque externo pode ser mais duradouro do que o BC supõe.

Ian Lima, da Inter Asset, defende que o BC tem margem para a aposta: com a Selic em 15% por nove meses e juro real próximo de 10%, bem acima das estimativas de neutro (6% a 7%), há gordura para queimar. Ao preservar o ciclo, o BC evita que o mercado precifique uma alta dos juros, o que geraria aperto adicional indesejado. A Vinland Capital projeta cortes de 0,25 ponto até setembro, mas Aurélio Bicalho alerta que uma pausa antes do quarto trimestre é provável: “O IPCA vai para a casa de 5% neste ano e, se o BC seguir com o ciclo por muito mais tempo, a inflação de 2027 também será muito mais alta.”

O que observar

A aposta do BC funciona se o choque do petróleo for temporário e as expectativas voltarem a se ancorar. O risco maior está na ausência de uma régua de reação clara: sem sinais do que levaria o colegiado a pausar, o mercado não consegue calibrar a trajetória dos juros longos nem o custo do risco. Uma desancoragem adicional das expectativas para 2027 e 2028 tornaria inevitável uma comunicação mais explícita sobre os gatilhos de parada, e o custo de credibilidade de demorar a fazê-la tende a crescer quanto mais o ciclo avança sem essa clareza.

Vale acompanhar dois termômetros: a inflação de serviços subjacentes no IPCA de abril, que dirá se a aceleração para 5,7% se confirma, e a mediana do Focus para 2028 nas próximas divulgações. A aritmética do ciclo ainda favorece a continuidade: com juro real a 10%, o BC tem espaço que a maioria dos bancos centrais de economias emergentes não tem. Mas esse espaço é finito, e o horizonte até setembro é curto.

Fontes: Valor EconômicoAgência BrasilInfoMoneyLet’s MoneyLet’s Money

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