Bruno Serra Fernandes, ex-diretor do Banco Central e gestor dos fundos Janeiro da Itaú Asset Management (R$ 30 bilhões), afirma que preferiria pausar o ciclo de flexibilização monetária se a decisão do Copom fosse hoje: a projeção de inflação do fundo para 2026 saltou de 3,5% para cerca de 5%, e as expectativas para 2027 e 2028 também pioraram.
Cenário macro do fundo Janeiro
| Indicador |
Antes da guerra |
Cenário atual |
| Inflação projetada 2026 |
~3,5% |
~5% |
| Selic de 11%: prazo esperado |
Fim de 2026 |
Meados de 2027 |
| Choque de petróleo (barris/dia) |
Temporário e limitado |
10-15 milhões, mais duradouro |
Cenário do fundo Janeiro antes e depois da guerra. Fonte: Valor Econômico
O divisor de águas do Copom
Nas duas últimas reuniões, o Copom cortou 0,25 ponto percentual em cada uma, levando a Selic para 14,5% ao ano, e deliberadamente não sinalizou o que faria em junho. Serra avalia que o BC agiu com acerto ao tratar o choque da guerra como temporário, mas que agora chegou a um ponto de inflexão. “[…] fica difícil continuar tratando isso indefinidamente como um choque temporário, especialmente com projeções ainda perto de 3,5%, meta de inflação em 3% e expectativas longas começando a desancorar”, disse o gestor em entrevista ao Valor Econômico. Em março, o Boletim Focus já projetava Selic a 12,13% para 2026 após a escalada do conflito, e a leitura do mercado hoje está ainda mais pessimista.
Para Serra, se o Copom optar por cortar 0,25 ponto percentual, precisará acompanhar a decisão de comunicação bem mais dura. “O BC não pode simplesmente aceitar a deterioração das expectativas longas de inflação”, afirmou. O ex-diretor do Banco Central lembra que interromper os cortes em 10,5% e depois ter de reverter o ciclo seria muito ruim para a credibilidade da autoridade monetária.
Posicionamento do fundo
A aposta central do fundo Janeiro hoje é o achatamento da curva de juros: a equipe toma a parte curta da curva, apostando que o BC permanecerá conservador, e aplica na longa, avaliando que os juros longos estão excessivamente altos dado que a economia tende a desacelerar mais à frente. A posição em juros brasileiros é significativamente menor do que era antes da guerra. A gestora havia lançado ETFs de renda fixa para capturar o ciclo de queda de juros em fevereiro, cenário que Serra agora vê se prolongando.
No exterior, o fundo mantém posição aplicada em juros no Reino Unido, financiada com posição tomada na Europa, além de dólar comprado contra moedas de países desenvolvidos (franco suíço, libra e euro). Serra descarta apostar em dólar forte contra emergentes, incluindo o real. No Brasil, o gestor vê o carrego como principal atrativo do real, mas alerta que o risco eleitoral deve aumentar a volatilidade conforme a campanha avança.
O que observar
A decisão de junho colocará sob escrutínio a postura do BC diante de choques externos persistentes: até quando um banco central emergente pode tratar um choque de oferta como temporário sem comprometer a ancoragem das expectativas? A reunião do Copom não sinalizou guidance em abril, preservando flexibilidade. A leitura do mercado sobre o grau de comprometimento com a meta de 3% será formada tanto pelo voto quanto pela intensidade da sinalização que acompanhar a decisão.
Vale acompanhar como gestores de fundos multimercado ajustarão suas posições após o resultado: a estratégia de achatamento da curva funciona bem no cenário de pausa, mas se o corte vier com comunicação suficientemente dura, o efeito sobre os juros longos pode ser similar. A variável mais relevante não é o voto em si, mas o tom do comunicado sobre a trajetória a partir de agosto.
Fontes: Valor Econômico • Agência Brasil • Let’s Money