A curva de juros encerrou a semana precificando Selic de 14% no fim de 2026, distante dos 13,25% que ainda marcam a mediana das projeções dos economistas. Dados de inflação e atividade divulgados nos últimos dias reforçaram a percepção de que o espaço para cortes de juros neste ano é menor do que se imaginava, e gestores de mercado relevantes começaram a incluir explicitamente a possibilidade de interrupção do ciclo de flexibilização monetária.
Selic no fim de 2026: o que cada referência indica
| Referência |
Projeção |
Status |
| Mediana de mercado |
13,25% |
Consenso atual |
| Barclays |
13,5% |
Risco de alta relevante |
| Curva de juros |
14% |
Precificado no fechamento da semana |
Projeções para a Selic ao fim de 2026 segundo participantes do mercado. Fonte: Valor Econômico
O que acelerou a convergência nesta semana
Dois dados impediram que os juros de curto prazo acompanhassem a melhora externa com a queda do petróleo. A abertura do IPCA-15 de maio mostrou aceleração da medida mais acompanhada pelo mercado: a média móvel de três meses anualizada e dessazonalizada da inflação de serviços subjacentes subiu de 5,98% em abril para 6,15% em maio. A média dos núcleos também acelerou, de 5,06% para 5,11%. Na atividade, o resultado do Produto Interno Bruto do primeiro trimestre veio forte, com diversas casas revisando para cima as projeções de PIB para o ano após embutir o impacto positivo esperado do pacote de medidas do governo, em grande parte via crédito. O consignado privado, que já movimenta R$ 110 bi no país, é um dos canais de expansão que participa desse quadro. Quanto mais o crédito sustenta o consumo, mais o canal da política monetária fica obstruído, resume o diagnóstico que tem circulado no mercado.
O discurso do diretor de política monetária do Banco Central, Nilton David, ao longo da semana foi lido por participantes do mercado como sinal de maior preocupação interna com a dinâmica inflacionária. O estrategista Daniel Cunha, do Santander, avalia que está em curso “uma lenta percepção de que, mesmo antes do choque do petróleo, os mercados já vinham precificando de forma inadequada o regime macroeconômico atual: um ambiente que está se mostrando significativamente mais inflacionário do que se imaginava anteriormente”. Em março, o Focus apontava Selic a 12,13% no fim de 2026, horizonte que já parece distante.
O que gestores estão apostando: pausa possível, ciclo encurtado
Daniel Costa, gestor de renda fixa da família de fundos Janeiro da Itaú Asset Management, diz ver chance de corte em junho, mas considera que a possibilidade de interrupção do ciclo “é muito maior do que o mercado acredita”. “É verdade que, se a guerra se resolver rapidamente, abre espaço para que o ciclo continue, mas, na nossa leitura, é preciso uma melhora substancial para que isso fique claro nas próximas reuniões. Se não ficar, é bem possível que o BC venha a parar o ciclo de cortes de juros”, disse o profissional. Ele discorda da premissa de que o BC teria dificuldade institucional de parar um ciclo próximo a eleições: “Acho que o BC vai fazer o que for certo fazer”. O gestor vê valor em posições de achatamento da curva, apostando na alta das taxas mais curtas e na queda das mais longas.
No Bank of America, a leitura do PIB do primeiro trimestre “deveria deixar o Copom mais cauteloso, e não mais confortável”, segundo David Beker, chefe de economia para o Brasil e estratégia para a América Latina do banco. Ele nota que o consumo segue sustentado pelo impulso fiscal e pela expansão do crédito, enquanto a indústria depende do setor extrativo. No Barclays, Roberto Secemski elevou as projeções de inflação de 5,0% para 5,2% neste ano e de 3,9% para 4,0% em 2027, e classifica os riscos de alta para sua projeção de Selic a 13,5% como “relevantes”.
O que observar
O ponto de inflexão mais próximo é a reunião do Copom de junho: se o Banco Central cortar os juros mas sinalizar cautela na comunicação, a curva deve reagir. Se interromper o ciclo, o impacto sobre a parte curta da curva pode ser expressivo, com implicações para o custo de crédito das empresas e para o câmbio. O canal de transmissão monetária está parcialmente bloqueado pelo ciclo de crédito, e estrategistas alertam que os dados continuam sem indicar que a postura atual seja contracionista o suficiente para garantir o retorno da inflação à meta. O Brasil caminharia, nesse cenário, para um quinto ano consecutivo de inflação acima da meta.
No prazo mais longo, os riscos apontados pelo mercado se acumulam: possível aprovação de redução de jornada de trabalho adicionaria pressão justamente sobre serviços, o segmento que mais preocupa o Banco Central no IPCA. Escassez de fertilizantes e possíveis impactos do El Niño mantêm a pressão sobre alimentos. E os preços de combustíveis seguem significativamente abaixo das cotações internacionais, configurando uma pressão latente caso haja realinhamento.
Fontes: Valor Econômico • Let’s Money: Focus e a Selic em 2026